As razões do calvário da Shein após IPO frustrante
Gigante da ultra-fast-fashion estreou na Bolsa de Hong Kong avaliada em US$ 26,3 bilhões, quase 75% abaixo do pico de 2022
Por anos, a Shein pareceu imune às regras tradicionais do varejo. A empresa transformou algoritmos, redes sociais e uma cadeia de produção ultrarrápida em uma máquina de vender roupas a preços que pareciam impossíveis. Nesta terça-feira, 1º, porém, o mercado deu um recado menos entusiasmado. A gigante da ultra-fast-fashion estreou na Bolsa de Hong Kong com queda de até 10% nas primeiras horas de negociação. Ao final do pregão, recuperou praticamente toda a perda e fechou a HK$ 48,50, praticamente no mesmo nível dos HK$ 48,56 do IPO. Ainda assim, a estreia expôs as dúvidas que cercam seu futuro.
O principal número ajuda a dimensionar o tombo. A companhia foi avaliada em cerca de US$ 26,3 bilhões na abertura de capital, muito distante dos quase US$ 100 bilhões alcançados em uma rodada privada em 2022. Em quatro anos, portanto, a Shein perdeu cerca de três quartos de seu valor de mercado. O IPO levantou US$ 1,7 bilhão, mas o desempenho das ações mostrou que o dinheiro novo não veio acompanhado da confiança que a empresa esperava.
A conta ficou mais cara
Uma das maiores ameaças ao modelo da Shein está naquilo que durante anos foi uma de suas maiores vantagens: vender produtos muito baratos diretamente ao consumidor. Mudanças nas regras de importação nos Estados Unidos e na Europa elevaram os custos de pequenas encomendas vindas da China, corroendo parte da vantagem competitiva construída pela empresa. Analistas também apontam aumento dos custos e desaceleração do crescimento nos principais mercados ocidentais.
Nos Estados Unidos, o fim de benefícios tributários para encomendas de baixo valor atingiu especialmente plataformas como Shein e Temu. Na Europa, a pressão também aumenta. A União Europeia vem reduzindo as vantagens das compras de pequeno valor vindas de fora do bloco, enquanto a França iniciou nesta terça-feira a cobrança de taxas ambientais sobre produtos de ultra-fast-fashion. As tarifas francesas podem chegar a 12 euros por peça, dependendo do produto, e fazem parte de uma estratégia para combater a superprodução e estimular roupas mais duráveis. É uma mudança importante para uma empresa cuja proposta foi construída em torno de uma quantidade gigantesca de produtos vendidos por valores mínimos. Quanto mais caro fica colocar cada peça nas mãos do consumidor, mais difícil é preservar a equação que fez a Shein crescer.
Crescer já não é tão fácil
Outra questão é que os investidores passaram a enxergar limites no ritmo de expansão da companhia. A Shein chegou ao mercado financeiro depois de anos de crescimento explosivo, mas agora enfrenta um cenário de maior competição e custos mais altos. Temu, AliExpress e outras plataformas disputam o mesmo consumidor digital, enquanto Zara, H&M e outros grandes varejistas tradicionais também aceleraram suas estratégias digitais. A companhia tenta, por isso, diversificar o negócio para além da moda ultrabarata.
O próprio caminho até a Bolsa revela parte do problema. A Shein passou anos tentando abrir capital em Nova York e Londres, mas encontrou obstáculos regulatórios e políticos. A longa espera acabou levando a empresa a escolher Hong Kong para sua estreia, quatro anos depois do pico de sua avaliação. A pressão financeira também aumentou. A companhia registrou prejuízo líquido de US$ 99 milhões no primeiro trimestre deste ano, em contraste com a trajetória de expansão que havia ajudado a sustentar sua gigantesca avaliação privada.
O problema não é só dinheiro
Há ainda uma questão mais difícil de resolver: a Shein se tornou símbolo de uma moda baseada em produzir, lançar e descartar em velocidade inédita. A enorme quantidade de peças disponíveis, combinada a preços extremamente baixos, alimentou críticas ambientais e sociais e colocou a companhia no centro de investigações e discussões regulatórias na Europa e nos Estados Unidos.
A reação francesa é especialmente emblemática. Pela primeira vez, um país europeu passou a criar uma cobrança diretamente relacionada ao impacto da ultra-fast-fashion, com taxas maiores para produtos associados a modelos de produção e consumo considerados mais problemáticos. A medida atinge empresas como Shein e Temu e sinaliza que o preço de uma peça pode começar a incorporar custos que antes ficavam invisíveis.
A Shein precisa se reinventar
O desafio, portanto, não é só recuperar a cotação das ações. A companhia precisa provar que consegue continuar crescendo em um mundo no qual seus produtos podem ficar mais caros, a regulação mais dura e os consumidores menos dispostos — ou menos capazes — de comprar quantidades cada vez maiores de roupas.
A Shein tenta responder ampliando sua atuação para além da ultra-fast-fashion e investindo em tecnologia e reconhecimento de marca. O problema é que, para os investidores, ainda não está claro qual será a próxima grande fonte de crescimento. “Mesmo depois do enorme ajuste de valuation, os investidores ainda não veem a Shein como obviamente barata”, avaliou Charu Chanana, estrategista-chefe de investimentos da Saxo, à Reuters.
O IPO que deveria marcar a entrada triunfal da Shein na maturidade empresarial acabou funcionando como um teste. A empresa continua enorme, mas já não parece tão invencível assim. O mercado reduziu drasticamente o preço que está disposto a pagar por sua história e agora cabe à Shein mostrar se consegue escrever um novo capítulo sem depender exclusivamente da fórmula que a levou ao topo.







