50 tons de branco: a mais curinga das peças está em alta na moda
A camisa alva — e suas infinitas variações — reafirma em 2026 seu lugar como símbolo de elegância, simplicidade e liberdade
Há mulher mais elegante do que a venezuelana radicada nos Estados Unidos Carolina Herrera, estilista e criadora de joias e perfumes? É dela uma frase que soa incolor e nasceu plena de matizes: “Eu sempre me senti eu mesma numa camisa branca”. Poucas peças oferecem tanto charme, e infinitas possibilidades, quanto um botão alinhado sobre algodão alvo.
Agora em 2026, a paleta de neve volta às passarelas e ruas com força, em clássico movimento de vaivém da moda. Não à toa. Desde a Idade Média, quando a brancura simbolizava status e higiene, até ganhar contornos de rebeldia em retratos de Maria Antonieta, no avesso dos barretes vermelhos da Revolução Francesa, a tonalidade acumulou camadas de sentido.
No século XX, a tingir a blusa de pegada nívea, os designers ofereceram a peça para as mulheres, que a adotaram como gesto de autonomia e sofisticação. O cinema, sempre ele, ajudou a consolidar o percurso: em Boêmio Encantador (1938), Katharine Hepburn mostrou que a alfaiataria podia ser feminina, sim senhor. Depois vieram Ava Gardner, com sua versão de mangas curtas, e Audrey Hepburn, de colarinho erguido e mangas arregaçadas, transformando o básico em ícone. Nos anos 1960, Twiggy acrescentou gravata; na década de 1990, a peça ganhou nós na cintura e transparências sutis. A mesma camisa, mas em versões renovadas.
E o que há de inédito agora? O poder polivalente — dá para usar com tudo — de modelo que soa simples mas é riquíssimo. Na Chanel, Matthieu Blazy apresentou camisas alongadas combinadas a saias de festa que varriam o chão. Na Dior, sob o olhar de Jonathan Anderson, o corte ganhou laços marcantes, unindo tradição e experimento. A Hermès apostou na sobreposição: longa, usada sob jaquetas curtas de couro, aberta com naturalidade calculada. Na Givenchy, detalhes de colarinho e manga renovaram o clássico, com a versão em nó na cintura combinada ao jeans de barra virada — urbana e acessível.
O movimento tem um quê de piscadela ao que hoje é considerado chique: a simplicidade, no avesso do exagero. Vale, a rigor, outras tinturas, como o amarelo-manteiga e o azul-bebê. Trata-se de exalar firmeza e segurança, como quem conversa em vez de gritar. “Independentemente da tendência ou da estação, é um curinga”, diz o stylist Dudu Farias. “É das peças mais versáteis e atemporais da moda.” Se houvesse alguma dúvida da potência do fenômeno, convém olhar para as celebridades e as onipresentes redes sociais, ali onde tudo acontece.
Julia Roberts a usa com a serenidade de quem sabe que menos é mais. Kendall Jenner aposta no minimalismo. No Brasil, Juliana Paes e Larissa Manoela mostram a versatilidade tropical da peça, combinando-a com pantalonas leves, saias amplas e jeans de cintura alta. A força da camisa clara está, reafirme-se, na facilidade de adaptação: funciona na reunião de trabalho, atravessa a noite com saia lápis de couro e acompanha o fim de semana sobre biquíni. Pode ser cropped em oxford encorpado ou longa e fluida, quase túnica. O gesto de arregaçar as mangas (uau!) continua um dos mais poderosos da moda — simples, direto e cheio de intenção, em banho de sensualidade atrelada a recato. Atemporal, democrática e independente de estação ou tendência, é uma página em branco pronta para qualquer narrativa, para ficar com expressão da hora, desde que escrita com personalidade.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985





