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Walcyr Carrasco

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Quem está olhando?

Acho que inventamos um espectador para nossa própria vida

Por Walcyr Carrasco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 12 jul 2026, 08h00
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Outro dia percebi que estava escolhendo uma roupa para ir à farmácia. Não era um jantar. Não era uma estreia. Não era um encontro. Era pura e simplesmente uma farmácia. Eu precisava comprar um remédio e voltar para casa. Ainda assim, experimentei duas camisas. Olhei no espelho. Passei perfume. Quando saí do elevador, me veio uma pergunta incômoda: a quem exatamente eu estava tentando impressionar? Outro dia li um conselho na internet: devemos sair vestidos para encontrar nosso pior inimigo e o grande amor de nossas vidas. Parece exagero. A realidade é que a balconista mal levantou os olhos do computador. O rapaz do caixa queria apenas passar os códigos de barras. Uma senhora estava preocupada em descobrir se o remédio tinha desconto. Ninguém me examinou, ninguém me julgou. Mas eu tinha me preparado como se houvesse uma banca avaliando minha performance.

Acho que inventamos um espectador para nossa própria vida. Ele nos acompanha quando escolhemos um restaurante, quando compramos um sofá ou pedimos um vinho cujo nome mal sabemos pronunciar. Pior: quando fingimos gostar de um livro que não terminamos — ou quando engano minha nutricionista dizendo que bati a meta proteica diária, após ter devorado meio pudim.

“A memória tem um defeito maravilhoso: ela não guarda o que impressiona, mas o que emociona”

Tudo virou currículo. Quem diz que não liga para a opinião alheia faz questão de anunciar isso para o maior número de pessoas possível. Quem vive repetindo que escolheu uma vida simples faz um esforço enorme para demonstrar tamanha simplicidade. Até desaparecer virou espetáculo. Outro dia vi um conhecido dizendo que precisava se afastar das redes para viver a vida real. Descobri isso justamente pelas redes.

Também não sou inocente. Já fotografei pratos antes da primeira garfada. Já pensei se um lugar renderia uma boa foto antes de calcular se seria uma boa lembrança. Já deixei de comprar uma roupa porque imaginei o que poderiam pensar dela. É constrangedor admitir, mas talvez seja mais constrangedor fingir que nunca aconteceu.

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Há algum tempo resolvi fazer uma experiência: fui jantar com amigos e deixei o celular no bolso. Não fotografei a mesa, não registrei o brinde, não publiquei o restaurante. Apenas conversei, ri, ouvi histórias. E me conectei de verdade. Voltei para casa com a estranha sensação de que havia recuperado uma parte de mim que nem lembrava que havia perdido. A memória tem um defeito maravilhoso: ela não guarda o que impressiona, mas o que emociona. Foi então que entendi a pergunta que me perseguia desde a farmácia. Quem está olhando? Passei anos acreditando que havia alguém, uma plateia, um jurado, um recrutador invisível distribuindo notas para minhas escolhas. Mas esse personagem nunca existiu. Eu o inventei. Talvez você também tenha inventado o seu. E talvez a maior verdade da vida é que ninguém está esperando que você seja extraordinário o tempo inteiro. As pessoas estão ocupadas demais tentando convencer o mundo de que elas próprias são assim.

Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

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