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Por Walcyr Carrasco
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Quem é quem com quem?

Num mundo de palavras voláteis, ficou difícil definir as relações

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Atualizado em 10 abr 2023, 10h12 - Publicado em 9 abr 2023, 08h00

Houve uma época em que as pessoas namoravam. Depois, um dia, a moça esticava o dedo e, numa festa regadas de brindes, recebia um anel de noivado. Pronto, estava noiva. Um passo para o altar. Depois, vinha o casamento. Mães e sogras rezavam, acendiam velas e até ofereciam galinhas gordas nas encruzilhadas para que nem a mínima ideia de divórcio tocasse a porta daquele novo lar. Hoje, eu não sei mais nada. Chamar alguém de namorado ou namorada pode não querer dizer nada. Ou tudo. Os pombinhos moram juntos, como um casal sacramentado. Mas se apresentam como namorados. Também cada um pode ter seu próprio canto, até em outra cidade. Mas ele orgulhosamente a apresenta como “minha mulher”.

Uma série de palavras mudou de significado, ou até despencou do vocabulário. A mulher que não era casada, mas vivia com um homem, era “amásia”, “concubina”. Um jeito horrível de dizer. “Estamos juntos” — um amigo declara. Isso quer dizer o quê? Vão ao cinema juntos? Vão passar a vida juntos? Ou são sócios em novo empreendimento? É preciso saber pelo tom, expressão, sorriso ou cara de emburrada que algumas moças fazem quando ouvem um “estamos juntos” sem sentirem-se tão juntas assim. Ter um “relacionamento”. O que é isso, de fato? Bem, eu tenho um relacionamento com o porteiro do prédio, com minha vizinha de porta, com o vendedor da loja, mas isso não significa que a gente se abrace, se beije na boca ou faça planos para o futuro. Por outro lado, também pode significar que temos uma relação estável e ansiamos por bebês.

“Cada um vive como quer. Eu só não quero correr o risco de ofender, magoar, por não me situar”

As palavras foram perdendo o significado. E nem sempre definem as reais relações humanas. Já ouvi uma amiga dizer “estou casada” após três encontros amorosos. Só que também é lindo ouvir dois idosos se chamando de namorados após cinquenta anos de vida em comum. Outro dia, uma amiga falou em seu “gato”. Perguntei de que raça, ela morreu de rir. Gato costuma ser namorado, embora também exista a possibilidade de haver um pet com pedigree. Se ela disser que ele é “um cachorro”, talvez seja uma situação mais próxima do divórcio que do amor por um meigo lulu-da-­pomerânia.

Eu tento me acostumar com as hastes flexíveis das palavras. Mas novidades surgem, o tempo todo. Encontrei com uma conhecida que não via há muito tempo, com dois filhinhos, acompanhada por dois rapazes. Todos se chamavam de “amor”, e eu não estava entendendo mais nada. Ela desatou o nó: “Cada filho é de cada um. Somos um trisal”. Viviam todos juntos e felizes, sem ciúmes. É um tipo de relacionamento que sempre houve, mas se escondia. Hoje pode fazer parte da vida, assumidamente.

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Cada um vive como quer. Eu só não quero correr o risco de ofender, magoar, por não me situar. Um amigo diz que vai sair com a “gatinha”. Vão para uma orgia descabelada ou só comer uma pizza?

Era melhor quando sabia quem era quem e com quem, e as palavras significavam o que significavam. É difícil me situar em um mundo de palavras tão voláteis. Ainda vou precisar de um tradutor.

Publicado em VEJA de 12 de abril de 2023, edição nº 2836

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