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Walcyr Carrasco Por Walcyr Carrasco

Quanto riso, quanta alegria…

Por que eu não senti tanto alívio com a queda das máscaras

Por Walcyr Carrasco Atualizado em 28 mar 2022, 16h08 - Publicado em 27 mar 2022, 08h00

Sei que sou chato. Mas não entendo tanta alegria em tirar a máscara. Como se a determinação de alguns governadores curasse a Covid. Há anos — bota aí uns dezessete — eu me surpreendi, em um voo para o Japão, ao ver uma senhora de máscara. Imaginei ser portadora de doença grave. Alguém me explicou: “Pode ser que ela esteja gripada e, nesse caso, está usando a máscara para não transmitir aos outros passageiros”. Eu nunca tinha ouvido falar em tal grau de civilidade. Nós aqui, nos trópicos, pensamos muito pouco no próximo. Mais tarde, no próprio Japão, vi muitas pessoas de máscaras na rua. Soube que lá existe uma febre contagiosa (não letal) e as pessoas usam para se proteger. Confesso que na época me pareceu muito estranho. Com a pandemia, nada mais lógico. O uso de máscara tornou-se comum. Sinceridade: as pessoas que me cercam nunca gostaram. Sentiam-se incomodadas. Foi um pouco como na imposição do cinto de segurança. Conheci pessoas que preferiam fazer uma viagem inteira segurando o dito-cujo, para disfarçar para a polícia, do que prender a barriguinha. Ainda bem que agora, se o cinto não está preso, apita. Já estou cansado de ver gente que bota a máscara com o nariz pra fora. Fica ridículo.

O uso da máscara é associado ao cerceamento de toda e qualquer diversão. Então, não se pode mais ter bloco de Carnaval, não se pode mais fazer festona, isso e aquilo. Eu até concordo. Caindo na real. Há uma pandemia. São essas as únicas diversões possíveis? Ou mudam-se os hábitos ou…

“A liberação tem a ver com a vontade de ser bonzinho em ano eleitoral. Mais que cuidar da saúde da população”

Enquanto vejo comemorações porque a máscara não está mais proibida em muitos estados, fico sabendo de uma nova onda de Covid-19 na China. Na Europa, também. Surgiu uma subvariante. Outra! Já não consigo mais decorar os nomes, são tantas! Mais letal que a ômicron. A queda do uso de máscaras (sempre elas) fez os casos subirem.

Um amigo francês me disse: “Temos de nos acostumar, assim como foi com outros casos de gripe, e no fim ela vira uma doença normal”. Sim, ótimo, sei que isso aconteceu com várias enfermidades letais ao longo da história. Mas nunca ouvi dizer que tenha ocorrido com a peste negra. E as pessoas mais frágeis, idosos ou portadores de doença, vão ficar expostas a esses exércitos sem máscara? Eu já vi gente em viagem internacional tirando a máscara escondido do comissário ou comissária de bordo. Como se fosse um jogo infantil.

Eu penso que a liberação da máscara tem a ver com a vontade de parecer bonzinho em um ano eleitoral. Mais do que de cuidar da saúde da população. Posso estar errado. Mas a gente caiu em número de infecções assim. Não era para usar a máscara em tempo integral?

Há tanta coisa no mundo, tantas possibilidades. Essa festinha de hoje é mesmo fundamental? Eu sei de gente que ficou seriamente comprometida com Covid. Sem falar nas que se foram. Por isso, aquela musiquinha não me sai da cabeça: “…Tanto riso, tanta alegria… Mais de mil palhaços no salão…”.

Publicado em VEJA de 30 de março de 2022, edição nº 2782

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