Outro dia eu disse que estava “teclando” com um amigo. A pessoa ao meu lado me olhou com a ternura reservada a quem ainda guarda ficha telefônica. Teclar? Ninguém tecla mais. Digita. Ou manda mensagem. Daqui a pouco nem isso. Vamos pensar e o aparelho escreverá por nós.
As palavras também envelhecem. Algumas mudam de sentido e continuam. Outras somem sem despedida. Quem ainda “disca” um telefone? Disquei muito. Enfiava o dedo naquele círculo, girava e esperava o disco voltar. Era preciso paciência até para telefonar. Hoje, se a internet demora três segundos, achamos que a civilização acabou.
E “datilografar”? Palavra imponente. Eu datilografava. A máquina fazia tec-tec-tec. Errava uma letra e começava o drama: borracha, corretivo, papel rasgado. Hoje apertamos delete. Até o arrependimento ficou mais fácil.
Também “rebobinávamos”. Fita cassete, de vídeo… Agora tudo volta com um toque. O passado ficou instantâneo. Fotografia era “revelada”. Havia filme, laboratório e expectativa. Tirávamos uma foto em janeiro e só descobríamos em fevereiro que estávamos de olhos fechados. Hoje fazemos vinte fotos para escolher uma em que pareçamos espontâneos. Nunca deu tanto trabalho parecer natural.
“Palavras carregam manias, sons, épocas inteiras. ‘Datilografar’ tem barulho. ‘Revelar’ tem suspense”
E o verbo “telefonar”? Está perdendo para “chamar”. “Te chamo depois.” Quando ouço isso, ainda imagino alguém gritando meu nome na janela. Mas não. Vai mandar um WhatsApp. Aliás, conversar também mudou. Duas pessoas podem conversar durante horas sem emitir um único som. Se nossos avós vissem, talvez chamassem um médico.
Tenho carinho por “folhear”. Folhear um livro, uma revista, um álbum. Hoje deslizamos o dedo numa tela. É eficiente, mas pouco poético. Ninguém se apaixonaria ouvindo: “Quando nossas mãos se encontraram, eu estava rolando a tela”.
Até “esperar” corre perigo. Antes esperávamos uma carta. Esperávamos o telefone tocar. Esperávamos a fotografia ser revelada. Hoje mandamos uma mensagem e, dois minutos depois, já estamos indignados: “visualizou e não respondeu!”. O amor contemporâneo é medido por dois risquinhos azuis.
Há palavras que desaparecem porque os gestos desapareceram. Sem disco, não se disca. Sem fita, não se rebobina. Sem máquina, não se datilografa. E quando o gesto morre, a palavra começa a arrumar as malas. Isso me dá melancolia. Porque uma palavra não é só uma palavra. Carrega objetos, manias, sons, esperas, épocas inteiras. “Datilografar” tem barulho. “Revelar” tem suspense. “Folhear” tem cheiro.
Um dia, “digitar” também será palavra de velho. Um jovem perguntará:
— Você escrevia tocando numa tela?
Direi:
— Com os dedos.
Ele ficará horrorizado:
— Todos?
— Quase todos.
E então entenderei que não são apenas as palavras que ficam antigas. Nós envelhecemos dentro delas.
Pretendo continuar teclando. Depois, se ninguém entender, melhor ainda. Palavra antiga tem uma vantagem: dá à gente um ar de sábio. Ou de peça de museu.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015







