O que vou escrever pode parecer doidice. Mas acho que existe algum tipo de justiça neste mundo, um pouco incompreensível para nós, pobres mortais, e nem sempre tão lógica como gostaríamos. Tive durante anos um funcionário que, no final das contas, demiti. Foi triste, pois era uma relação profissional antiga. Mas em trabalhos assim próximos, quando entra a dúvida, não dá pra continuar. Foi tudo pago, não houve denúncias, mas por outro lado nunca recebi um telefonema pedindo referências.
Atualmente, sei muito pouco da vida dele. A não ser que continua desempregado, por comentários de amigos em comum. Continua no mercado há meses e, como todo mundo sabe, quanto mais tempo sem emprego, mais difícil fica encontrar um. Muita gente que conheço diz: “Aqui se faz, aqui se paga”. Tenho dúvidas.
Tantos cometem fraudes, prejudicam a vida alheia e continuam impávidos, fraudando e prejudicando pelo mundo afora. Mas também sofrem nas mãos de filhos, parceiras ou parceiros, ou pior, nunca realizam seus sonhos mais secretos. Digo isso porque sou um depositário de sonhos alheios: muita gente bem de vida, que parece realizada, me confessa que queria de fato ser ator ou atriz, escrever livros, enfim, ser artista. Mas o tempo não espera. Quem dedicou suas horas a dar golpes e rasteiras certamente não teve tempo para se dedicar aos sonhos mais profundos. Por fim, creio que as vigarices afastam as pessoas de seu mundo interior. Sei que não há uma regra específica que leve à realização ou não do propósito de vida de cada um. Mas existe uma verdade: o tempo é um só.
“Mesmo a sorte da vitória é resultado do gesto de apostar. Resumindo: nada vem de graça”
Se alguém se dedica profundamente a algo, bom ou ruim, dificilmente dará certo em outro projeto. O que parece “resposta da vida” me soa como resultado de um investimento pessoal. Já conheci muita gente para quem a existência parece uma sucessão de acasos, sortes ou azares. Penso que é, simplesmente, o resultado daquilo que a pessoa decidiu fazer.
Há exceções, como ganhar uma fortuna na loteria. Só que os sortudos são poucos e muitos perdem rapidamente o que ganharam. Porém, vejam o meu caso: nunca jogo, nem compro bilhete ou algo parecido. Portanto, como posso ganhar? Mesmo a sorte da vitória é resultado do gesto de apostar. Resumindo: nada vem de graça. A vida é uma cadeia de ações e consequências. Ou, como diz o ditado popular, “quem planta colhe”.
Confesso que já sofri muitos golpes. Emprestei dinheiro, por exemplo. Por mais que me repetissem que ao emprestar “perde-se o dinheiro e o amigo”, até recentemente, caí nas ciladas. Perdi, é óbvio, dinheiro e amigos. A gente se afasta porque a questão da dívida fica entre nós, silenciosa mas pulsante. Contudo, a resposta da vida vem rápida. A pessoa que perde a confiança dos amigos perde também a chance de novas oportunidades profissionais e de se recuperar completamente. Acredito que a vida fala por si mesma. E que as respostas chegam como uma forma de justiça que a gente não sabe compreender de onde veio. Mas que vem, vem.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997





