A inteligência artificial escreve textos, compõe músicas, cria imagens, dubla vozes, produz vídeos e responde a perguntas com uma velocidade impressionante. Já deixou de ser uma promessa e passou a fazer parte da rotina de muita gente. Confesso que, em vários aspectos, acho fascinante. Como toda tecnologia, pode facilitar a vida, democratizar conhecimento e abrir caminhos criativos que antes pareciam impossíveis. Mas, com o encantamento, vieram perguntas a que ainda não sei responder.
Hoje, qualquer pessoa pode pedir para a IA escrever no estilo de determinado escritor (socorro, até no meu!). Pode solicitar uma música como as de Marisa Monte. Pode criar uma fotografia ou uma imagem em movimento de alguém, em uma situação que nunca existiu. E tudo isso em poucos segundos! Recentemente, ouvi uma cantora comentar que sua voz vem sendo utilizada para criar gravações que ela jamais autorizou. Não é apenas uma questão comercial. É uma questão de identidade. Aquela voz não nasceu de um computador. Ela é fruto de décadas de trabalho, escolhas, amadurecimento artístico e uma sensibilidade que pertence exclusivamente a ela.
“A criatividade humana sempre foi construída sobre referências, observando quem veio antes”
Dias atrás, um amigo ator viveu uma situação curiosa. Um diretor apresentou um projeto de espetáculo, para captar recursos, cuja capa trazia a imagem dele. Parecia uma foto produzida especialmente para aquele trabalho. Mas ele nunca havia posado para tal ensaio. Na verdade, sequer fora convidado para participar da peça! Sua imagem tinha sido criada artificialmente. É difícil não sentir certo desconforto. Existe uma diferença enorme entre uma ferramenta que inspira e uma que substitui.
É curioso perceber que durante muitos anos os artistas aprenderam a proteger seus direitos autorais. Mas as leis caminham atrás da velocidade da inovação. Os direitos autorais e de imagem, assim como a proteção da personalidade e da voz, existem, mas a IA trouxe situações inéditas. Em vários países já se discute a necessidade de regras mais claras. Não sou contra a IA, o que seria pura bobagem. Não acredito que a resposta seja combatê-la. Ela veio para ficar. E pode fazer um enorme bem à medicina, à educação, à ciência e até aos processos criativos. O desafio talvez seja outro.
Como impedir que uma ferramenta extraordinária se transforme em um instrumento de apropriação? A criatividade humana sempre foi construída sobre referências. Todos nós aprendemos observando quem veio antes. Mas existe uma fronteira entre inspiração e reprodução. Entre influência e cópia. Entre admirar um artista e transformar sua identidade em um produto completamente disponível. Talvez seja justamente essa a conversa que precisamos ter agora, enquanto ainda há tempo de estabelecer limites. A tecnologia evolui todos os dias. A ética não evolui sozinha. Ela depende das escolhas que fazemos. Mais do que nunca, está na hora de escolher.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007







