Há um momento em que a gente percebe que o espelho deixou de ser um cúmplice para virar um comentarista. Ele não mente. Também não debocha. Apenas informa. A primeira ruga não chega sozinha. Vem acompanhada da tentação de apagá-la como quem corrige um erro de digitação. E é curioso como transformamos um sinal de vida em defeito de fabricação.
Não tenho nada contra quem pinta o cabelo, faz um procedimento estético ou decide frequentar uma academia. Faço minhas escolhas também. O problema começa quando a juventude deixa de ser uma fase da vida para virar uma profissão em tempo integral. Há pessoas que acordam todos os dias para representar alguém que já não são. Vivem como atores presos ao papel que lhes deu sucesso décadas atrás.
Conheço gente que insiste em usar as mesmas roupas, as mesmas gírias, os mesmos gestos de quando tinha 20 anos. Não porque goste, mas porque tem medo. Medo de que o tempo revele quem se é realmente. Como se envelhecer fosse uma derrota e não um privilégio reservado apenas a quem continua vivo.
“Quem tenta vencer o tempo descobre que ele não aceita competidores. Ele continua andando”
A idade passou a ser tratada como uma doença. Ninguém quer dizer quantos anos tem. Todos querem parecer menos. Curiosamente, ninguém deseja parecer mais sábio. O mercado vende cremes para apagar marcas de expressão, mas não vende coragem para aceitar que cada uma dessas marcas conta uma história.
Vejo homens disputando com os filhos quem veste a camiseta mais apertada. Mulheres desesperadas para ouvir que parecem irmãs das próprias filhas. Adultos transformando maturidade em fantasia de Carnaval. A juventude virou uma religião; as redes sociais, seu templo. Ali, ninguém envelhece. Apenas escolhe um filtro melhor.
O mais estranho é que essa corrida nunca termina. Quem tenta vencer o tempo descobre que o tempo não aceita competidores. Ele apenas continua andando. E quanto mais alguém luta para esconder a própria idade, mais ela passa a ocupar todos os seus pensamentos.
A maturidade tem um charme que a juventude desconhece. É a liberdade de não precisar impressionar o tempo inteiro. É rir das próprias limitações. É entender que nem toda festa merece nossa presença e que dormir cedo pode ser mais revolucionário do que virar a noite.
Hoje gosto da pessoa que me tornei muito mais do que daquele rapaz ansioso que acreditava ter de conquistar o mundo antes dos 30. Descobri que amadurecer não é perder o brilho. É trocar o reflexo pelo olhar. A casca pela essência.
Talvez a verdadeira juventude não esteja em parecer mais novo, mas em continuar curioso, capaz de aprender, de amar e de se espantar. O rosto muda. O corpo muda. A alma, quando aceita crescer, rejuvenesce de um jeito que nenhum creme jamais conseguirá imitar.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005






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