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Walcyr Carrasco

Por Walcyr Carrasco
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A caverna de Platão

Um debate escolar sobre celulares oculta dramas maiores

Por Walcyr Carrasco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 9 Maio 2024, 20h09 - Publicado em 12 nov 2023, 08h00

Estamos em um lugar sagrado, é uma sala de aula. Os alunos, alvoraçados por sair da rotina. Uma “feira da sabedoria”, um evento promovido pela escola com palestras e debates. Entrei em uma sala, com alunos, professores, pais e afins… O tema central era: “O uso do celular dentro da sala de aula deve ou não ser proibido?”.

Uma aluna começa o debate defendendo a proibição porque alega ser um desrespeito para com o professor e colegas, além de atrapalhar a concentração e consequentemente o processo pedagógico. Um outro aluno diz ser um retrocesso a proibição, visto como a tecnologia impacta nossas vidas hoje. Um pai toma a palavra, diz que a empresa onde trabalha passou por uma reestruturação e hoje é mais sustentável, tem um aplicativo que pode ser acessado do próprio celular. Menos impressão e mais palma da mão. Um professor de humanas levanta a mão e pergunta se pode ler um texto do seu próprio celular. Todos riem. É um poema que ele escreveu no bloco de notas sobre algoritmos. Uma profissional da área de tecnologia pede a palavra e alerta sobre a transitoriedade do celular. Diz que muito em breve eles serão reduzidos a óculos, lentes de contato ou até por um chip introduzido na pele. Isso não será nenhuma surpresa.

“O que será desse admirável mundo novo? Uma coisa é certa, é preciso se transformar para permanecer”

Uma aluna do ensino médio alega acreditar no mito da caverna de Platão, onde pessoas presas viradas para o fundo acreditavam que as sombras refletidas eram a realidade. Quando finalmente uma pessoa se soltou e pôde conhecer a vida fora da caverna, ao voltar para contar como era para as demais, foi assassinada por não acreditarem no que estava dizendo. E a aluna continuou seu raciocínio dizendo que não podemos fechar os olhos para os avanços tecnológicos e que é contra a proibição, mas a favor da regulamentação, do uso consciente e clama pela introdução de apps que estimulem e dinamizem o processo de aprendizagem do estudante.

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Fiquei impressionado com a velocidade da transformação. O que será desse admirável mundo novo? Uma coisa é certa, é preciso aprender a se transformar para permanecer. Uma ferramenta importante dessa jornada é o diálogo. Em todos os debates, não importa quem venceu ou quem perdeu, e sim que todos saiam melhores do que entraram. Um evento como esse enriquece os envolvidos.

O final do debate foi emocionante, com uma homenagem a um professor de filosofia que estava se afastando por motivos de saúde. Todos os alunos compartilharam a experiência que esse professor ofereceu atravessando seus pensamentos e corações, e plantando em suas vidas as sementes de novas experiências. Um professor não é somente o que ensina, mas também aquele que nos direciona para as perguntas certas. Saí do debate e fui tomar um café, comecei a conversar com uma inspetora que desabafou sobre a falta de oportunidade de acordo com as suas qualificações. Ela trabalha na escola há dez anos, é formada e mestranda em pedagogia, mas não consegue uma vaga compatível com sua formação. Eu perguntei o motivo, e ela disse: “Olhe para a cor da minha pele”.

Publicado em VEJA de 10 de novembro de 2023, edição nº 2867

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