Vai dar namoro? Por que não basta apelar ao marketing pessoal
Como o medo de ficar só pode influenciar nossas relações e nos fazer abrir mão de quem realmente somos
Há muitos anos, quando eu ainda era solteira e navegava pelo universo confuso dos encontros amorosos, uma amiga — especialista em terapia de casais — me sugeriu a leitura de um livro chamado Speed Dating. Não me lembro dos detalhes do livro, mas uma ideia ficou comigo. E, mais do que isso, voltou a aparecer inúmeras vezes no meu consultório.
Os autores usavam uma analogia simples: relacionamentos costumam dar errado quando uma pessoa ainda está em fase de desenvolvimento do produto, enquanto a outra já está em fase de marketing.
Em empresas, isso é óbvio. Primeiro você desenvolve o produto. Depois, vai ao mercado. Quando essa ordem se inverte, o risco de fracasso é alto.
Na vida emocional, fazemos o contrário o tempo todo.
Durante muito tempo, eu mesma fui a encontros estando ainda em desenvolvimento. Não porque estivesse “quebrada” ou em transição, mas porque eu não tinha clareza suficiente sobre quem eu era, o que valorizava e, principalmente, sobre meus limites. Meus “sins” e “nãos” mudavam conforme o medo de desagradar, de ser rejeitada, de ficar sozinha.
Eu escolhia com base no que me fazia sentir melhor naquela hora.
Se a pessoa diminuía minha ansiedade, parecia um bom encaixe.
Se o encontro adiava a sensação de voltar para casa sozinha, parecia conexão.
Hoje, olhando com a lente clínica, isso tem um nome: decidir para aliviar emoção, não para sustentar valores, é uma forma de evitação psicológica.
O medo de ficar só é um dos motores mais potentes de escolha. Ele empurra pessoas para relações que reduzem o desconforto imediato — aceitar menos, ceder antes da conversa, engolir o que incomoda —, mas não sustentam quem elas são. É assim que se escolhe por medo, não por alinhamento de valores.
Quando conheci meu marido, algo era diferente. Não porque o medo tivesse desaparecido, mas porque eu já estava mais esclarecida sobre o tipo de vida que queria construir — e sobre o tipo de concessão que eu não estava mais disposta a fazer para caber em uma relação. Ele também.
Não foi sobre “dar certo”.
Foi sobre não precisar negociar quem se é para não perder o outro.
Vejo essa dinâmica todos os dias no consultório. Recentemente, uma paciente tentou listar os valores que gostaria de encontrar em um parceiro. Bastaram alguns minutos para que surgissem os pensamentos conhecidos:
“E se não gostarem de mim assim?”
“E se eu precisar ceder um pouco?”
“Talvez eu esteja pedindo demais.”
Esse é o ponto em que muitas pessoas deixam de escolher — e começam a se adaptar silenciosamente.
Quando alguém entra em modo “marketing pessoal”, algo importante já aconteceu por dentro: a decisão passou a ser guiada pela evitação, não pelo compromisso com valores. A pergunta deixa de ser “isso combina com a vida que quero construir?” e passa a ser “isso me mantém acompanhado hoje?”.
É aqui que a evitação se instala, de forma elegante e socialmente aceita.
Evita-se a conversa difícil.
Evita-se sustentar um não.
Evita-se o risco de ficar só por algum tempo.
No curto prazo, isso alivia.
No longo, cobra e gera mais ansiedade.
Relacionamentos escolhidos para reduzir medo costumam exigir concessões silenciosas, inconsistência e uma sensação persistente de não caber, mesmo estando acompanhado.
Desenvolver-se, antes de ir ao mercado emocional, não é se tornar “melhor”. É refletir no que é mais importante para você. É conseguir sustentar os mesmos limites quando o medo aperta. É parar de chamar recuo de flexibilidade.
Ser ousado, nesse contexto, não é se expor mais. É parar de se vender por menos do que se é.
Porque uma das formas mais eficazes de acabar sozinho, a longo prazo, é construir relações sacrificando valores no curto prazo.
Esta semana, deixo você com duas perguntas simples e nada fáceis:
Você está escolhendo relações para viver melhor ou apenas para sentir menos medo?
E, quando vai ao encontro, você está apresentando quem é ou quem acha que precisa ser?
Se esse texto tocou em algo que você reconhece — nas suas escolhas, nos seus encontros, nas concessões que você vem fazendo —, a conversa não precisa parar aqui.
No Instagram @luanamarques.phd, continuo discutindo esses padrões com o mesmo rigor clínico, trazendo ciência aplicada às decisões reais que tomamos quando o medo aparece.
Me escreva.
Conte o que você tem evitado sustentar nas suas relações.
Eu leio.





