Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 9,90
Imagem Blog

Viver com Ousadia

Por Luana Marques Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
A ansiedade pode se tornar sua maior força. A psicóloga Luana Marques, professora de Harvard, ensina como transformar o medo em ação e treinar a mente para vencer as incertezas pelo caminho.

O que pais de filhos que sentem demais precisam saber

Nem toda explosão infantil é desafio: às vezes é o medo de não ser bom o suficiente

Por Luana Marques 27 fev 2026, 17h50 • Atualizado em 2 mar 2026, 10h38
  • Eu estava evitando a verdade.

    Como mãe, como psicóloga, como alguém que passa mais de duas décadas estudando emoções — eu estava evitando encarar o que meu filho de oito anos estava me dizendo.

    Não com palavras.

    Com o corpo.

    Diego sempre foi intenso. Emoções grandes para situações pequenas. A família brincava que ele tinha alma de novela mexicana — o pai é mexicano, afinal. Ríamos.

    Mas, nos últimos meses, com a escola nova, os episódios pioraram. “Ele responde de forma desrespeitosa”, diziam. Em casa, quando tentávamos conversar sobre qualquer coisa que ele tinha feito, ele se fechava. Explodia. Ou congelava completamente.

    Eu usei tudo o que sei. Reforço positivo. Timeout. Validação de sentimentos. Sistema de pontos com recompensas.

    Continua após a publicidade

    Nada funcionava.

    E eu racionalizava: “É fase. Ele é sensível. O córtex pré-frontal está imaturo.”

    Até o dia em que ele olhou para mim, olhos vermelhos, corpo tenso, e disse:

    “Why don’t you send me to an orphanage? You would be better off without me.”
    (Por que você não me manda para um orfanato? Você estaria melhor sem mim.)

    Eu respondi como fui treinada:

    Continua após a publicidade

    “Filho, eu nunca te daria. Eu te amo. Por que você está dizendo isso?”

    Mas ele não se acalmava.

    E foi ali que eu percebi algo que eu vinha evitando encarar.

    Diego não estava sendo desafiador. Não estava me testando. Não estava manipulando.

    Ele estava sentindo vergonha.

    Continua após a publicidade

    E vergonha, eu deveria saber, é diferente de tudo.

    Vergonha não é culpa.

    Culpa diz: “Eu fiz algo errado.”

    Vergonha diz: “Eu sou errado.”

    A culpa ativa reparação: a criança quer consertar o que fez.

    Continua após a publicidade

    A vergonha ativa ameaça: a criança quer desaparecer.

    E, para uma criança de oito anos, ameaça significa uma coisa só: “Eu posso perder o vínculo com quem eu amo.”

    Então, quando eu dizia: “Vamos conversar sobre como você respondeu para a professora”, o que o corpo do Diego escutava era: “Você é um problema. Você não é bom o suficiente. Você pode ser rejeitado.”

    A vergonha não ativa luta ou fuga. Ela ativa congelamento. Retirada. O corpo encolhe. O olhar baixa. A criança se fecha.

    Ou, às vezes, explode, porque a intensidade que está dentro precisa sair de algum jeito.

    Continua após a publicidade

    A Dra. Becky Kennedy chama crianças como Diego de “deeply feeling kids” — crianças que sentem profundamente.

    Não são crianças dramáticas. Não são crianças sensíveis demais.

    São crianças cujo sistema nervoso processa emoções de forma mais intensa. O que para outra criança é um leve desconforto, para elas é uma ameaça real ao vínculo.

    Quando Diego dizia “give me away” (me dá para alguém), ele não estava testando limites.

    Ele estava expressando o medo literal que o corpo dele sentia: “Eu não sou bom o suficiente para pertencer a esta família.”

    Cada “talking back” (responder mal) na escola, cada explosão em casa — o cérebro dele interpretava como mais uma confirmação: “I’m a bad boy.” (Eu sou um menino mau.)

    E, quanto mais eu tentava corrigir o comportamento sem primeiro regular a ameaça ao vínculo, mais eu confirmava exatamente o que ele mais temia.

    O mais difícil não foi entender a ciência.

    Foi sentar com a minha própria culpa.

    Eu ensino que cada cérebro funciona de um jeito. Eu sei que o córtex pré-frontal de uma criança ainda não está maduro, que a amígdala está no comando, que explosões emocionais podem ser respostas a ameaças.

    E, ainda assim, eu estava aplicando técnica comportamental como se um modelo servisse para todos.

    Eu estava tratando vergonha como se fosse desobediência.

    Eu estava evitando encarar que o cérebro do meu filho não funciona como o cérebro do manual.

    Estou aprendendo isso agora.

    Ainda não tenho todas as respostas. Ainda estou descobrindo como mudar a forma como trabalho com ele.

    Mas eu sei uma coisa: Diego não precisa de mais técnica comportamental.

    Quando ele diz “I’m a bad boy”, o que ele está realmente perguntando é:

    “Eu ainda pertenço?”

    E, antes de falar sobre comportamento, antes de corrigir, antes de ensinar — ele precisa ouvir:

    “You belong here. Always.”
    (Você pertence aqui. Sempre.)

    Primeiro segurança. Depois aprendizado.

    Primeiro vínculo. Depois correção.

    Escrevo esta coluna como mãe.

    Como alguém que achava que sabia — e descobriu que não sabia.

    Como alguém que está aprendendo, em tempo real, que criar um “deeply feeling kid” exige que eu desaprenda muito do que me ensinaram.

    Se você tem um filho que se fecha quando você tenta conversar.

    Se você já tentou todas as técnicas e nada funcionou.

    Se você já ouviu seu filho dizer “eu sou ruim” e não soube o que responder.

    Talvez, como eu, você também tenha um “deeply feeling kid”.

    E talvez o que ele mais precise não seja que você conserte o comportamento.

    É que você diga:

    “Você pertence aqui. Sempre.”

    Estou aprendendo isso com Diego.

    Se você também está aprendendo, a conversa continua no Instagram @luanamarques.phd.

    Nos vemos na próxima coluna.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).