‘Eu sei, mãe. Sou bagunceiro’. O que minhas palavras tinham feito
Colunista reflete o impacto de pequenas mensagens cotidianas para a formação da identidade desde a infância
Eu achava que estava sendo clara.
Durante semanas, toda vez que entrava no quarto do Diego e via roupas no chão, livros espalhados, um tênis no meio do corredor, eu dizia a mesma coisa:
“Diego, você é muito bagunceiro.”
A frase saía rápida, automática.
E eu tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa. Afinal, se eu nomeasse o problema com clareza, ele finalmente mudaria.
Até a tarde em que ele voltou da escola, jogou a mochila no chão da cozinha e comecei: “Diego, você é…”
Ele me interrompeu.
“Eu sei, mãe. Eu sou bagunceiro.”
E continuou andando.
Não tinha frustração na voz dele. Não tinha resistência.
Tinha algo pior: aceitação.
Naquele momento, percebi o que tinha feito.
Não estava corrigindo um comportamento.
Eu estava construindo uma identidade.
Semanas antes, meu amigo Geronimo Theml, coach no Brasil, tinha me falado exatamente sobre isso: a diferença entre criticar o que alguém faz e definir quem alguém é. Na época, eu ouvi. Mas só naquele momento — vendo Diego aceitar o rótulo — realmente entendi.
E reconheci o padrão da terapia cognitivo-comportamental: crenças centrais se formam pela repetição. Eu estava, sem querer, ensinando meu filho quem ele era.
Existe uma diferença enorme entre dizer que algo está bagunçado e dizer que alguém é bagunceiro.
A primeira descreve um comportamento — algo que pode mudar.
A segunda descreve uma identidade — algo que define quem a pessoa é.
E crianças ainda estão aprendendo a separar essas duas coisas.
Quando Diego ouviu “você é bagunceiro” repetidamente, ele não escutou apenas uma crítica sobre o quarto dele.
Ele começou a aprender quem ele é.
Na psicologia cognitiva, chamamos essas conclusões profundas sobre nós mesmos de crenças centrais (core beliefs). São ideias que a pessoa forma sobre sua própria identidade.
O que a pesquisa mostra é que essas crenças raramente nascem de um único grande evento.
Elas se formam pela repetição de pequenas mensagens cotidianas.
Uma frase aqui. Outra ali. Um rótulo repetido em momentos de frustração.
Com o tempo, aquilo deixa de ser algo que a criança escutou.
Passa a ser algo que ela acredita.
Depois daquela tarde, comecei a prestar atenção em algo que eu sabia como psicóloga — mas que, como mãe, tinha deixado passar. Existe uma assimetria curiosa na forma como muitos adultos falam com crianças.
Quando criticamos, criticamos a identidade:
“Você é desorganizado.” “Você é difícil.” “Você é preguiçoso.”
Mas quando elogiamos, elogiamos o resultado:
“Você tirou um A.” “Seu trabalho ficou bonito.” “Você arrumou bem o quarto.”
O negativo cola na identidade.
O positivo cola na performance.
Sem perceber, ensinamos à criança que os erros revelam quem ela é — enquanto os acertos revelam apenas o que ela fez.
E identidade molda comportamento.
Se Diego passou a acreditar “eu sou bagunceiro”, bagunça faz sentido. Não por rebeldia, mas porque o cérebro humano busca coerência interna.
Organização vira algo estranho — quase como vestir uma roupa que não é sua.
Duas semanas depois daquela conversa, testei algo diferente.
Entrei no quarto dele — caos total — e em vez de dizer “você é bagunceiro”, disse:
“Seu quarto está bagunçado. Vamos arrumar antes do jantar?”
Ele olhou para mim, surpreso.
E arrumou.
Não perfeitamente. Não do jeito que eu faria.
Mas ele arrumou.
A diferença não foi apenas semântica.
Foi estrutural.
Quando disse: “seu quarto está bagunçado,” eu estava falando sobre algo que pode mudar.
Quando eu dizia “você é bagunceiro,” eu estava falando sobre quem ele é.
E esse padrão continua quando crescemos—nas empresas, nos relacionamentos, em como falamos conosco mesmos.
Isso não significa evitar feedback. Significa ser preciso.
Comportamento pode mudar.
Identidade parece permanente.
Escolha suas palavras como se elas definissem quem a pessoa vai se tornar.
Hoje, ainda pego a frase se formando na minha cabeça.
A diferença é que agora eu paro.
Porque bagunça é algo que ele faz—não algo que ele é.
E palavras constroem quem ele vai se tornar.
Às vezes, as frases que mais nos marcam não são as que ouvimos uma única vez.
São as que ouvimos muitas vezes, em momentos pequenos e cotidianos.
E, sem perceber, transformamos essas frases em verdades sobre nós mesmos.
Antes de terminar, uma pergunta diagnóstica:
Que identidade suas palavras estão ajudando a construir nas pessoas ao seu redor?
Se você reconheceu algum padrão nessa coluna — no que você diz aos seus filhos, sua equipe ou a si mesmo — me escreve no Instagram @luanamarques.phd
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Eu leio tudo. Respondo quando consigo. E suas histórias muitas vezes se tornam as próximas colunas.
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