Met cancela Galliano por passado de comentários antissemitas e racistas
Exposição 'John Galliano: Horizons' no Met Gala 2027 é cancelada após protestos e pressão sobre o Metropolitan Museum of Art
O Met Gala costuma ser o lugar onde a moda transforma exagero em espetáculo. Em 2027, porém, o espetáculo prometia começar antes mesmo do tapete vermelho. John Galliano seria o centro da próxima grande exposição do Costume Institute, John Galliano: “Horizons”, uma retrospectiva dedicada a um dos estilistas mais talentosos — e mais controversos — de seu tempo. Mas, depois de semanas de protestos, o Metropolitan Museum of Art decidiu cancelar a mostra diante da pressão sobre o passado antissemita do criador e reabrir o debate sobre os limites entre redenção, memória e consagração pública.
O recuo também encerra (ao menos por enquanto) um debate que havia colocado a moda no centro de uma questão bem maior: até onde vai o direito à segunda chance? E quando a redenção pessoal é suficiente para justificar a consagração institucional?
A escolha de Galliano para o Costume Institute já havia causado estranhamento quando foi anunciada, em agosto. O estilista, que revolucionou a moda à frente de casas como Givenchy, Dior e Maison Margiela, teve sua carreira interrompida em 2011 após fazer comentários antissemitas e racistas em Paris, incluindo declarações de admiração por Hitler. Dior o demitiu, e um tribunal francês o considerou culpado de insultos públicos de caráter racial e religioso. Desde então, Galliano passou por tratamento contra dependência química, pediu desculpas e iniciou um longo e gradual retorno à indústria.
Desde então, Galliano passou por tratamento contra dependência química, pediu desculpas e iniciou um longo e gradual retorno à indústria. O próprio The New York Times, que primeiro revelou as delicadas negociações envolvendo a exposição, mostrou que o Met não ignorara seu passado: antes do anúncio, Anna Wintour, o curador Andrew Bolton e o estilista se reuniram com rabinos e importantes líderes da comunidade judaica de Nova York. A exposição também previa abordar explicitamente a “ruptura” causada por sua conduta. O dilema, portanto, não era a falta de consciência sobre a controvérsia, mas a convicção de que o trabalho de Galliano merecia ser separado — ou contextualizado ao lado — do homem que o criou.
Só que não foi suficiente. A escolha ganhou uma camada ainda mais delicada quando se percebeu que o calendário do evento poderia coincidir com uma data de forte significado para a memória do Holocausto, ampliando a indignação. Nos últimos dias, a pressão se tornou intensa e o Met chegou a considerar mudar a data do baile antes de abandonar inteiramente o projeto.
Nesta segunda-feira 31, o cancelamento foi confirmado em comunicado conjunto do museu e do estilista. Galliano afirmou que, depois de refletir e conversar com os envolvidos, concluiu que a exposição não deveria acontecer “neste momento”, reiterando que permanece responsável pela dor provocada por suas palavras, especialmente às comunidades judaica e asiática. O Met ainda não anunciou qual mostra ocupará o lugar da retrospectiva na edição de 2027.
O caso revela uma contradição que a moda, acostumada a celebrar retornos triunfais, talvez preferisse não enfrentar. O mesmo sistema que, durante anos, ajudou a reconstruir a carreira de Galliano — aplaudindo seu trabalho na Maison Margiela e devolvendo-o gradualmente ao circuito de prestígio — descobriu que a reabilitação profissional não é necessariamente sinônimo de homenagem histórica, já que uma retrospectiva no Met passa longe de ser só um desfile de reconhecimento. É uma espécie de selo de eternidade. Significa colocar alguém na história. E, para muitos críticos da decisão inicial, era essa passagem da segunda chance para a canonização que, ao que parece, ainda é impossível de aceitar.
A moda gosta de acreditar que tudo pode ser recriado: uma peça, uma imagem, uma carreira. Mas a memória não é tecido que se corta e costura de novo. John Galliano não perdeu uma exposição. O cancelamento mostrou que, na era em que marcas, museus e celebridades disputam narrativas de reparação, algumas perguntas continuam sem caber em uma vitrine: quem merece ser perdoado, quem pode ser celebrado e, principalmente, quem tem o direito de decidir a diferença entre uma coisa e outra.







