E se Carolyn Bessete-Kennedy estivesse na primeira fila da Calvin Klein?
Desfile de outono/inverno da marca reacende a pergunta sobre o verdadeiro minimalismo em tempos de exageros na moda
O estilo de Carolyn Bessette-Kennedy é daqueles que não pertencem a uma época — tem mais a ver com atitude. Era silencioso, preciso, quase austero e, justamente por isso, inesquecível. Só que, nesse momento, a moda global mergulha em volumes dramáticos, cores intensas, brilhos e sobreposições. Um retorno ao excesso que contrasta com a estreia de “Love Story”, série que revisita a relação de Carolyn com John F. Kennedy Jr. — casal que se tornou um mito cultural nos anos 1990, tanto pelo glamour quanto pelo desfecho trágico (morreram em um acidente de avião em 1999) — e a coloca novamente sob os holofotes como mulher que construiu sua imagem no oposto: a contenção absoluta.
Além da narrativa romântica, a produção de Ryan Murphy também traz à tona um elemento que já desperta desejo entre fashionistas: o figurino. A série recria com precisão o guarda-roupa que Carolyn usava dentro e fora do trabalho na Calvin Klein, onde ela atuou como relações públicas antes de se tornar ícone de estilo.
E é aí que mora o contraste interessante com o momento atual. Hoje, o maximalismo domina em silhuetas amplas, texturas misturadas, referências históricas sobrepostas e estética quase teatral. Carolyn, porém, representava outra lógica — um minimalismo de identidade, com paleta neutra, cortes impecáveis, ausência de ornamento, sensualidade sugerida e não declarada. Era um luxo intelectual — algo raro até hoje.
Talvez, exatamente por vivermos esse auge do maximalismo, o estilo dela volte a parecer tão fresco. E o desfile da Calvin Klein, com coleção sob o olhar da diretora criativa Veronica Leoni, fez inevitavelmente surgir a questão: o que Carolyn acharia de tudo isso?
A resposta pode ser complexa. A coleção buscou referências no fim dos anos 1970 e início dos 1980, antes de a marca consolidar o minimalismo que a transformou em sinônimo de sofisticação urbana. O resultado foi um desfile com ideias interessantes, mas, por vezes, desconectadas entre si — com ternos sem mangas que destacavam os braços, alfaiatarias abertas nas costas e vestidos aparentemente clássicos que revelavam surpresas inesperadas quando vistos de outro ângulo.
Ainda assim, houve momentos muito Calvin Klein: o vestido branco de regata com acabamento delicado, o trench coat em camadas, a silhueta limpa de um vestido tomara-que-caia que parecia desenhado com uma única linha. Peças que conversam diretamente com o imaginário que Carolyn ajudou a construir.
Como o olho humano busca equilíbrio — e a indústria acompanha — movimentos opostos se alimentam. Quando tudo fica barulhento, o silêncio ganha força. Quando há excesso de informação visual, a limpeza se torna sofisticada e, por isso, a influência de Carolyn agora não significa que o maximalismo vai desaparecer, mas sim que pode surgir uma convivência: peças exuberantes combinadas com bases limpas, acessórios dramáticos sobre roupas simples, ou o inverso — o que já se vê nas passarelas e no street style.
Vale lembrar ainda que o minimalismo contemporâneo não é o mesmo dos anos 1990. Ele aparece mais sensual, mais arquitetônico, às vezes até com um toque de ousadia — costas abertas, transparências sutis, recortes estratégicos. Menos puritano e muito mais consciente do corpo.
Assim, se estivesse viva, talvez Carolyn continuasse fiel ao seu uniforme silencioso. Ou reinterpretasse o momento com a mesma inteligência com que sempre se vestiu: escolhendo apenas um elemento de excesso e deixando todo o resto respirar. Nunca vamos saber, mas dá para arriscar uma visão baseada no que sabemos sobre seu poder na moda: a edição — escolher menos, mas escolher melhor. Quem sabe fosse justamente isso que ela procuraria no desfile: clareza. Carolyn sabia que verdadeiro luxo não está na novidade, mas na precisão. E há algo profundamente poético em roupas que não gritam como um sussurro elegante que atravessa o tempo e permanece.





