Com ‘Euphoria’, Balenciaga transforma Paris em um retrato da geração Z
Desfile mergulha na série e mistura neons, sombras e sensualidade crua para capturar o espírito turbulento da juventude contemporânea
Não estava exatamente no radar da semana de moda de Paris que a Balenciaga fosse buscar inspiração em um dos retratos mais intensos e controversos da juventude atual. Mas foi justamente nesse território — febril, caótico e hiperestilizado — que a marca mergulhou ao apresentar sua nova coleção em uma colaboração direta com a série “Euphoria”, fenômeno da HBO que expõe sem filtros os excessos e fragilidades da geração Z.
O desfile aconteceu em um espaço amplo e sombrio na Avenue des Champs-Élysées, onde a iluminação baixa e a trilha sonora pulsante — com nomes como Rosalía e Labrinth — criavam um clima quase cinematográfico. Nas telas espalhadas pelo ambiente, imagens fragmentadas de cidades noturnas se misturavam a cenas inéditas da aguardada terceira temporada da série, prevista para abril. Em uma das peças mais comentadas, um suéter trazia estampada uma imagem da atriz Danielle Deadwyler, nova integrante do elenco, fumando em um top vermelho intenso.
Nos bastidores, o diretor criativo Pierpaolo Piccioli explicou que a colaboração nasceu da amizade com Sam Levinson, criador da série. A ideia, segundo ele, era capturar um retrato honesto da juventude contemporânea — sem moralizar nem romantizar. “O que me interessa em Euphoria é que ela simplesmente mostra a humanidade desses personagens”, disse.
Levinson foi responsável pela concepção visual do cenário e pela cinematografia da apresentação, enquanto Piccioli traduziu o clima da série em roupas que alternavam entre o cru e o sofisticado. O resultado apareceu em uma sequência de pretos brilhantes cortados por neons agressivos, vestidos que revelavam o abdômen, pernas nuas, jaquetas de couro enrugadas e óculos escuros quase indecifráveis — como se cada look carregasse uma dose de rebeldia adolescente.
Nos bastidores, atores da série como Chloe Cherry circulavam entre convidados e painéis de inspiração. Em um deles, surgia uma referência inesperada: “A Vocação de São Mateus”, de Caravaggio. Para Piccioli, a conexão estava no contraste dramático entre luz e sombra. Se o pintor barroco usava a escuridão para destacar a iluminação divina, “Euphoria” faria algo semelhante ao revelar momentos de beleza e fragilidade em meio ao caos emocional.
A aposta também faz sentido no campo estratégico. Em um mercado cada vez mais competitivo, conquistar o público jovem tornou-se prioridade para as grandes casas de moda — e poucas narrativas dialogam tanto com essa geração quanto a série da HBO.
De certa forma, a ousadia dialoga com o próprio espírito do fundador da maison. Cristóbal Balenciaga revolucionou a moda no pós-guerra ao propor silhuetas arquitetônicas, como os famosos casacos cocoon e os vestidos saco, desafiando o ideal rígido da cintura marcada que dominava a época do New Look de Dior. Desde então, a casa alterna momentos de radicalismo — do futurismo de Nicolas Ghesquière ao streetwear sombrio de Demna.
Agora, ao abraçar o imaginário visual de “Euphoria”, a Balenciaga reafirma sua vocação para provocar. Em vez de nostalgia ou romantização, o desfile ofereceu um retrato nervoso e sedutor da juventude contemporânea, em que beleza e perigo caminham lado a lado, iluminados por flashes de neon na escuridão.





