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Única carnavalesca da Sapucaí: ‘esperam que a mulher seja só boa esposa’

Annik Salmon prepara enredo sobre a primeira palhaça negra, na escola de samba Arranco de Engenho de Dentro

Por Giovanna Fraguito, Valmir Moratelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 31 jan 2026, 12h00 •
  • Única carnavalesca em atividade em uma escola de samba no Carnaval de 2026 do Rio de Janeiro, Annik Salmon, 44 anos, está à frente dos preparativos da ainda pouco badalada Arranco de Engenho de Dentro, na Série Ouro, antigo grupo de acesso. No grupo Especial, a designer e figurinista já passou pela tradicionalíssima Mangueira, entre 2023 e 2024, e conquistou um vice-campeonato com a Unidos da Tijuca, em 2015. Em conversa com a coluna GENTE, Annik reflete sobre essa instigante ausência feminina no mais alto cargo criativo das agremiações – com a morte de Rosa Magalhães e Márcia Lage no ano passado, não há mais mulheres na elite do samba. Em outros tempos, outros nomes, como Maria Augusta, também já falecida, e Lícia Lacerda, aposentada há décadas, deixaram marcas de identidade, mas não sucessoras.

    O que significa, na prática, ser hoje a única mulher à frente de uma escola do Carnaval carioca? É uma experiência bastante dura. Rosa (Magalhães) foi uma das maiores campeãs da era Sapucaí do Carnaval, e muitas vezes as mulheres ainda são subestimadas. Eu, por várias vezes, ouvi que só servia para dar o toque feminino ou que não fazia enredos com força para ser campeã. Hoje, penso que esse “toque feminino” que tanto criticam é o que torna o meu trabalho algo que me orgulha. Gosto de pensar nos detalhes, tenho me preocupado muito com o conforto do componente para desfilar, sem perder a carnavalização das fantasias ou o luxo que o carnaval pede. Apesar de termos grandes nomes, as carnavalescas ainda são poucas.

    Existe machismo silencioso no Carnaval? Nossa base social é patriarcal e machista. Parece que ainda se espera que a mulher seja só boa esposa, mãe e dona de casa, colocando o serviço doméstico como algo maior e a maternidade como obrigação. Escolhi ser mãe e me orgulho da escolha, mas entendo aquelas que não querem ser, acho importante que sejam respeitadas. Manter a casa ordenada, conseguir dar atenção para a minha família, para o meu marido e ainda tocar um barracão, ainda mais na Série Ouro, é um grande desafio, mas eu dou conta.

    Como o machismo se manifesta no dia a dia? O que acaba acontecendo, assim como fora do Carnaval, é que nós mulheres somos subestimadas na nossa capacidade e competência para realizar tarefas, sem que elas sequer nos sejam designadas. Parece que o fato de sermos mulheres nos torna incapazes de certas coisas aos olhos de uma sociedade que ainda se choca mais com coisas triviais do que com o assassinato brutal de uma mulher.

    O olhar feminino muda a forma de contar histórias na Avenida? Já fui muito contra essa história de “olhar feminino”, mas de uns tempos para cá, assumi o discurso. O fato de ser mãe e de ter entendido com consciência meu lugar enquanto mulher na sociedade me fez perceber que parte disso me compõe e parte disso é matéria de criação para os trabalhos que apresento. Quando fiz a ala do protesto no Carnaval 2025, fantasia com várias faixas com a palavra “resistente”, parte da inspiração se deu a partir das vivências de que mulher é o dito “sexo frágil”, e eu me vejo como resistente.

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    O enredo do Arranco do Engenho de Dentro em 2026 exalta Xamego, a primeira palhaça negra do Brasil. Por que a escolha? Tinha vontade de fazer enredo sobre circo há bastante tempo. Depois que assisti ao documentário Minha Avó era Palhaço, senti que a história dava enredo. Eis que proponho ao Arranco, uma escola matriarcal, e percebo as coincidências: a escola nasceu no mesmo dia que Maria Eliza Alves dos Reis, 21 de março. Precisamos levar para o Carnaval, museus, salas de aula, a história de grandes mulheres do Brasil que não foram para os livros e que corre o risco de se perder.

    Por que ainda há tão poucas mulheres carnavalescas? Talvez a sociedade desacredite tanto nós, mulheres, de fazermos coisas fora da lógica casa-maternidade, que muitas não se sentem capazes, não veem tantos exemplos e preferem evitar a decepção. A falta de representatividade é complicado, parece que gente não tem como chegar nesse lugar. Estar no Arranco me deixa feliz, pois a escola mostra que a gente pode chegar. Temos a Pâmela de intérprete, a Laísa como mestra de bateria… As mulheres podem chegar aos lugares. É mais difícil? Pode até ser, mas, somos resistentes.

    O que precisa mudar para isso deixar de ser exceção? Nesse momento, o que posso fazer é mostrar para as mulheres um pouco do que sei e formar novas profissionais. Pretendo até fevereiro fazer oficinas no barracão para ensinar o que sei. Quem sabe um dia não seja campeã do Carnaval com uma equipe cheia de mulheres talentosas e brilhantes?

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