Única carnavalesca da Sapucaí: ‘esperam que a mulher seja só boa esposa’
Annik Salmon prepara enredo sobre a primeira palhaça negra, na escola de samba Arranco de Engenho de Dentro
Única carnavalesca em atividade em uma escola de samba no Carnaval de 2026 do Rio de Janeiro, Annik Salmon, 44 anos, está à frente dos preparativos da ainda pouco badalada Arranco de Engenho de Dentro, na Série Ouro, antigo grupo de acesso. No grupo Especial, a designer e figurinista já passou pela tradicionalíssima Mangueira, entre 2023 e 2024, e conquistou um vice-campeonato com a Unidos da Tijuca, em 2015. Em conversa com a coluna GENTE, Annik reflete sobre essa instigante ausência feminina no mais alto cargo criativo das agremiações – com a morte de Rosa Magalhães e Márcia Lage no ano passado, não há mais mulheres na elite do samba. Em outros tempos, outros nomes, como Maria Augusta, também já falecida, e Lícia Lacerda, aposentada há décadas, deixaram marcas de identidade, mas não sucessoras.
O que significa, na prática, ser hoje a única mulher à frente de uma escola do Carnaval carioca? É uma experiência bastante dura. Rosa (Magalhães) foi uma das maiores campeãs da era Sapucaí do Carnaval, e muitas vezes as mulheres ainda são subestimadas. Eu, por várias vezes, ouvi que só servia para dar o toque feminino ou que não fazia enredos com força para ser campeã. Hoje, penso que esse “toque feminino” que tanto criticam é o que torna o meu trabalho algo que me orgulha. Gosto de pensar nos detalhes, tenho me preocupado muito com o conforto do componente para desfilar, sem perder a carnavalização das fantasias ou o luxo que o carnaval pede. Apesar de termos grandes nomes, as carnavalescas ainda são poucas.
Existe machismo silencioso no Carnaval? Nossa base social é patriarcal e machista. Parece que ainda se espera que a mulher seja só boa esposa, mãe e dona de casa, colocando o serviço doméstico como algo maior e a maternidade como obrigação. Escolhi ser mãe e me orgulho da escolha, mas entendo aquelas que não querem ser, acho importante que sejam respeitadas. Manter a casa ordenada, conseguir dar atenção para a minha família, para o meu marido e ainda tocar um barracão, ainda mais na Série Ouro, é um grande desafio, mas eu dou conta.
Como o machismo se manifesta no dia a dia? O que acaba acontecendo, assim como fora do Carnaval, é que nós mulheres somos subestimadas na nossa capacidade e competência para realizar tarefas, sem que elas sequer nos sejam designadas. Parece que o fato de sermos mulheres nos torna incapazes de certas coisas aos olhos de uma sociedade que ainda se choca mais com coisas triviais do que com o assassinato brutal de uma mulher.
O olhar feminino muda a forma de contar histórias na Avenida? Já fui muito contra essa história de “olhar feminino”, mas de uns tempos para cá, assumi o discurso. O fato de ser mãe e de ter entendido com consciência meu lugar enquanto mulher na sociedade me fez perceber que parte disso me compõe e parte disso é matéria de criação para os trabalhos que apresento. Quando fiz a ala do protesto no Carnaval 2025, fantasia com várias faixas com a palavra “resistente”, parte da inspiração se deu a partir das vivências de que mulher é o dito “sexo frágil”, e eu me vejo como resistente.
O enredo do Arranco do Engenho de Dentro em 2026 exalta Xamego, a primeira palhaça negra do Brasil. Por que a escolha? Tinha vontade de fazer enredo sobre circo há bastante tempo. Depois que assisti ao documentário Minha Avó era Palhaço, senti que a história dava enredo. Eis que proponho ao Arranco, uma escola matriarcal, e percebo as coincidências: a escola nasceu no mesmo dia que Maria Eliza Alves dos Reis, 21 de março. Precisamos levar para o Carnaval, museus, salas de aula, a história de grandes mulheres do Brasil que não foram para os livros e que corre o risco de se perder.
Por que ainda há tão poucas mulheres carnavalescas? Talvez a sociedade desacredite tanto nós, mulheres, de fazermos coisas fora da lógica casa-maternidade, que muitas não se sentem capazes, não veem tantos exemplos e preferem evitar a decepção. A falta de representatividade é complicado, parece que gente não tem como chegar nesse lugar. Estar no Arranco me deixa feliz, pois a escola mostra que a gente pode chegar. Temos a Pâmela de intérprete, a Laísa como mestra de bateria… As mulheres podem chegar aos lugares. É mais difícil? Pode até ser, mas, somos resistentes.
O que precisa mudar para isso deixar de ser exceção? Nesse momento, o que posso fazer é mostrar para as mulheres um pouco do que sei e formar novas profissionais. Pretendo até fevereiro fazer oficinas no barracão para ensinar o que sei. Quem sabe um dia não seja campeã do Carnaval com uma equipe cheia de mulheres talentosas e brilhantes?





