Os sucessos de artistas dos anos 1990 que seriam cancelados em 2025
É o Tchan!, ‘Malhação’, Banheira do Gugu, paquitas da Xuxa, Mamonas Assassinas... é grande a lista
Quem viveu os anos 1990 sabe: muita coisa mudou de lá para cá. Vários sucessos de artistas daquela época seriam, nos padrões culturais e comportamentais da atualidade, cancelados por questões de discurso, letras ou representações problemáticas. Funk e pagode com letras machistas, humor repleto de estereótipos, letras que ridicularizavam corpos ou padrões físicos, romantização de relacionamentos abusivos, sexualização de adolescentes, narrativas que minimizavam uso de álcool ou condutas ilegais, representações LGBTQIA+ estereotipadas e coreografias e clipes hipersexualizados… A seguir, a coluna GENTE traz uma lista não de “proibições”, mas de exemplos para esta análise de como a sensibilidade social mudou no país em quase três décadas.
Na boquinha da garrafa: Muitos sucessos dos anos 1990 exploravam narrativas objetificando mulheres, reforçando ciúme, posse ou submissão feminina. Se em 2025, canções assim seriam alvo de críticas por machismo estrutural, normalização de comportamentos abusivos e linguagem pejorativa, naqueles tempos não era aprofundada a discussão sobre violência psicológica e cultura do assédio.
- Exemplos: Tic, Tic, Tac, do Carrapicho (1996), continha letra e clipe com forte conotação sexual, com danças que hoje seriam examinadas sob ótica de sexualização indevida;
- É o Tchan! (1995–1999) com músicas como A Nova Loira do Tchan, A Dança da Cordinha, A Dança do Bumbum.
Será que ele é? Bandas e cantores que misturavam música com humor exagerado, apoiado em caricaturas de minorias, hoje seriam questionados por reforçar preconceitos. Nos anos 90, era comum ver paródias usando sotaques de nordestinos, japoneses, negros, pessoas LGBTQIA+ ou até pessoas com deficiência como “piada”. E não só na música, na televisão também. Não foram poucos os programas de humor que fizeram sucesso por reforçar estereótipos raciais e culturais.
- Exemplos: Dança da Vassoura, do Molejo (1997) reforça papéis servilizados e estereotipados.
- Paródias musicais de programas humorísticos (Casseta & Planeta, Pânico na TV, Sai de Baixo, Zorra Total, A Praça é Nossa etc) usavam estereótipos de nordestinos, japoneses, pessoas LGBTQIA+ e negros, hoje receberiam cancelamento imediato.
Objetificação feminina
Problema sempre detectado nas leituras sobre aquela década, a objetificação feminina ocorre quando a mulher é retratada na televisão não como sujeito (com voz, agência, pensamento), mas como objeto visual, cuja função é decorar, atrair audiência ou estimular desejo. Não foram poucas as vezes que isso se tornou exemplo de sucesso de audiência.
- Exemplos: No Zorra Total, as personagens femininas eram em sua maioria reduzidas à sensualidade (a “Gostosona do Zorra”). Os quadros continham piadas envolvendo troca de favores sexuais, assédio, voyeurismo.
- Já na Escolinha do Professor Raimundo, havia personagens como Dona Cacilda ou Tati, que demonstravam erotização constante. Não eram poucas as piadas baseadas em “pegar”, “cantadas” e objetos sexuais.
- No Casseta & Planeta, as esquetes com modelos em trajes mínimos eram quase obrigatórias. Eram tempos de humor sexual direto, muito baseado em estereótipos femininos.
- Eram várias as competições e shows com erotização ao vivo na TV. “Garota da Laje”, “Garota Verão”, “Garota do Fantástico” eram alguns dos concursos femininos televisionados com julgamento do corpo. Logo, o tratamento das candidatas era tido como produto estético para a audiência. As paquitas, assistentes de palco da Xuxa, são exemplo dessa fase sem “pudores” que ficou no passado.
Corpos e padrões físicos rejeitados: Músicas que fizeram sucesso brincando com gordura, magreza extrema, aparência facial, altura ou qualquer aspecto do corpo humano seriam criticadas hoje por body shaming. A cultura dos anos 1990 normalizava esse tipo de humor; já em 2025, o debate sobre saúde mental, autoestima e gordofobia mudou completamente a percepção.
- Exemplos: O grupo Mamonas Assassinas (1995) fazia piada em suas músicas com o que, hoje, seria visto como letras gordofóbicas, racistas e homofóbicas.
- Além disso, era muito pouco visto nos lugares de destaque nas novelas corpos negros, por exemplo. Algo que começou a mudar apenas recentemente, com a chegada do streaming ao país.
Romantização de relacionamentos abusivos
Alguns hits dos anos 1990, tal como novelas e minisséries, retratavam ciúme patológico como prova de amor, perseguição como demonstração de paixão ou controle emocional como parte normal de um romance. Em 2025, com avanços nas discussões sobre relacionamentos tóxicos, dependência emocional e violência psicológica, muitas dessas obras seriam fortemente criticadas. E com razão.
- Exemplos: Encosta N’eu, do Negritude Júnior (1995), dependência emocional tratada como devoção;
- Se… Ele…, do Molejo, Ciúme e posse apresentados como romance. O pagode da época, aliás, é prato farto para este quesito.
Sexualização de adolescentes
Várias músicas e novelas dos anos 1990 passavam despercebidas na época, mas hoje chamariam atenção por sexualizarem meninas ou por associarem sensualidade a menores de idade. Com a sensibilidade contemporânea, canções especialmente no axé e no pop, se tornariam alvo de cancelamento imediato. Alguns grupos musicais e artistas cuja estética dependia de erotização extrema, especialmente de dançarinas muito jovens, estavam a cada domingo se apresentando na TV aberta. Em 2025, com maior vigilância sobre exploração da imagem feminina e hipersexualização na mídia, isso se tornou um pouco mais raro.
- Exemplos: Baba Baby, de Kelly Key, considerada hoje problemática por objetificar o corpo feminino.
- O seriado global Malhação tinha personagens adolescentes em roteiros com forte carga sensual. Quase sempre, em suas primeiras temporadas, havia narrativa de “garotas gostosas” como motivação dos personagens masculinos.
Apelo erótico na TV
A década de 1990 foi marcada por um modelo televisivo baseado em apelo erótico, humor de conotação sexual, corpos femininos como espetáculo e naturalização de práticas que hoje seriam vistas como problemáticas. A lógica do “fazer audiência a qualquer custo” era dominante nas emissoras abertas.
- Exemplos: Planeta Xuxa e Xuxa Park com suas paquitas em roupas curtas e coreografias de sensualidade adulta;
- câmeras e quadros de dança com foco no corpo;
- o quadro Banheira do Gugu, no Domingo Legal, com participantes de biquíni em plena TV aberta tentando pegar sabonete em uma banheira, com closes invasivos.
Divulgacao (Divulgação/SBT)
Narrativas que minimizavam uso de álcool ou condutas ilegais
Alguns hits exaltavam bebedeiras, direção perigosa, brigas ou comportamentos considerados ilegais, tratados como aventuras leves. Em 2025, com a cultura de responsabilidade social ampliada, esse tipo de abordagem tem sido alvo de campanhas de boicote, especialmente nas redes. Ainda assim, no meio sertanejo, por exemplo, hoje segue forte a temática de bebidas.
- Exemplos: Boate Azul, de Bruno & Marrone;
- Sábado à Noite, de Gian & Giovani;
- Bebedeira, do Aviões do Forró;
- Bebendo e Chorando, de Eduardo Costa;
- Beber, Cair e Levantar, da Banda Djavu / Cia do Calypso;
- Whisky e Gelo, de Wesley Safadão.





