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Luiz Antonio Simas analisa enredos do Carnaval 2026: de Lula a Rita Lee

Historiador e escritor é o convidado do programa semanal da coluna GENTE

Por Valmir Moratelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 26 jan 2026, 11h00 • Atualizado em 12 mar 2026, 11h39
  • Luiz Antonio Simas, 58 anos, já escreveu dezenas de livros sobre cultura popular e religiosidades africanas. Referência nos assuntos que tão bem se bifurcam nas encruzilhadas de suas palavras, o historiador é o convidado do programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal da VEJA no Youtube, no streaming VEJA+, na TV Samsung Plus e também na versão podcast no Spotify). Já no clima do Carnaval que se avizinha, Simas discorre a respeito dos enredos e sambas escolhidos pelas doze agremiações do grupo Especial do Rio de Janeiro e aponta as duas escolas que, a seu ver, largam como favoritas ao título. Em comum, seis delas homenageiam diretamente personalidades em suas letras: Rita Lee, na Mocidade Independente; presidente Lula, na Acadêmicos de Niterói; Ney Matogrosso, na Imperatriz; mestre Ciça, na Viradouro; a carnavalesca Rosa Magalhães, no Salgueiro; Heitor dos Prazeres, na Vila Isabel. E uma das escolas tem o próprio Simas como um dos compositores, a Tuiuti, que ele explica o que o motivou a tal tarefa. Assista.

    ACADÊMICOS DE NITERÓI. “É uma aposta interessante, Niterói é uma escola nova, subiu e arriscou um enredo polêmico em um Brasil polarizado, mas ao mesmo tempo é um enredo interessante, pega a trajetória do retirante nordestino, o movimento sindical, vamos ver se funciona. O samba é bonito, vem com a visão da mãe contando a história do Lula. Niterói acertou, a chance de permanecer (no grupo especial) é trazer uma coisa diferente, até para lidar com essa peste de que a escola que sobe é julgada com um peso excessivo. (…) Nessa circunstância, Niterói entra como franco atiradora”.

    IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE. “Gosto do Camaleônico (título do enredo em homenagem a Ney Matogrosso), mas acho que o grande Camaleônico aí nem é o Ney, mas o próprio Leandro (Vieira, carnavalesco). Leandro saiu de um enredo sobre as águas de Oxalá, temática clássica, para mergulhar no Ney. É um artista excepcional, porque trabalha no imaginário da cultura brasileira. O quesito harmonia é direcionado ao canto da comunidade, harmonia é pensar no canto e na dança durante o cortejo dramático. E Ramos é uma comunidade que canta, tem uma bateria de excelência, um intérprete de primeira categoria… a Imperatriz vai fazer um desfile bacana”.

    PORTELA. “O enredo é muito interessante, traz uma temática fascinante sobre a presença negra e africana no Rio Grande do Sul. Poucos sabem que no Rio Grande do Sul há mais templos e terreiros de batuques, umbanda e candomblé registrados do que a Bahia e o Rio de Janeiro. O Rio Grande do Sul traz o maior número declarado de praticantes de religiões afro-brasileiras. Então este enredo quebra o imaginário daquele estado de imigração alemã, italiana, das charqueadas de Pelotas. Gosto do samba, tem crescido e encaixou bem com o (intérprete) Zé Paulo”.

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    MANGUEIRA. “Traz uma Amazônia interessantíssima, que é a da encantaria, que é indígena mas tem presença negra, a partir do mestre Sacá no Amapá. É um enredo que reacendeu um apoio do Amapá naquela onda de patrocínio digital, mas não foi pela linha fácil do que a gente chama de de ‘enredo CEP’, pega uma história de relevância, da cultura popular do Amapá, do conhecimento da fitoterapia, das folhas, das ervas… Vale lembrar que a Mangueira está se aproximando do centenário, em 2028”.

    MOCIDADE INDEPENDENTE. “A escola que poderia fazer esse enredo (sobre Rita Lee) é mesmo a Mocidade, que tem a fama de construir uma identidade primeiro com Fernando Pinto. Renato Lage depois traz a escola dialogando com a cultura pop, com a modernidade, então é a mais adequada a fazer uma homenagem a Rita Lee. E não podia ser um samba de pegada clássica, precisa mesmo dialogar com um perfil que a Rita tinha. Vamos ver, estou curioso”.

    BEIJA-FLOR. “O (mercado de) Bembé é uma aula, porque é uma festa criada por João de Obá logo depois da assinatura da Lei Áurea para celebrar a libertação a partir da perspectiva negra da religiosidade. É conhecida como Candomblé de rua, com um xirê para os orixás, cantando e louvando os ancestrais no dia 13 de maio. A Beija-flor juntou dois sambas, fez uma junção em uma disputa muito acirrada, e tem um sambão, um samba ‘macumbado’, forte”.

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    VIRADOURO. “Não tem como não gostar do samba. O enredo é o (mestre de bateria) Ciça, uma das figuras mais queridas do Carnaval. E a escola abre o leque ao falar do Ciça para também falar de coisas que são muito importantes: a Estácio de Sá, a importância do tambor na formação da cultura brasileira… E acho bonito que se dê as flores em vida. Ciça é um personagem marcante na história da escola”.

    UNIDOS DA TIJUCA. “Está em um processo de reconciliação com sua própria trajetória. Ao contrário de quem acompanha a Tijuca há pouco tempo, é uma escola muito tradicional. |Das escolas que desfilam hoje no Grupo Especial, somente três estavam no primeiro desfile em 1932: Mangueira, Portela e Tijuca. É um peso enorme. E vem agora com Carolina Maria de Jesus, que já foi enredo de uma escola em São Paulo. O samba é bem interessante, adequado a temática. Saiu muito bem para uma temática difícil de carnavalizar. Ao mesmo tempo que se não pode colocar para baixo porque a história dela é vitoriosa, também não pode ir para uma infusão que abandone o contexto em que ela produz a trajetória de vida. O risco é cair em uma romantização do precário”.

    PARAÍSO DO TUIUTI. “Sempre gostei muito de Carnaval, e sempre gostei de compor, tenho músicas gravadas com Maria Rita, Fabiana Cozza, Marcelo D2, Rita Benedita… Recebi uma ligação do Cláudio Russo e o enredo era sobre Ifá. Para quem não sabe, é oráculo do yorubas comandado por um grande orixá chamado Òrúnmìlà, mas o interessante é que esse oráculo não foi tão forte no Brasil no processo da diáspora africana. Há uma razão que é impossível negar, eu sou iniciado no Olucumi há vinte cinco anos, vivo dentro do contexto dessa religiosidade. Foi uma alegria fazer o samba da Tuiuti, um samba que a gente pensou em um intérprete, o Pixulé, o estilo de canto dele, com o timbre dele e estamos aí”.

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    VILA ISABEL. “Grande enredo. Heitor dos Prazeres está clamando por esse enredo há muito tempo, foi o sujeito que chamou aquela região da zona portuária do Rio de África em miniatura, foi artista plástica, compôs samba e contos de macumba… É um personagem seminal na cultura do Rio de Janeiro. É uma das grandes favoritas do Carnaval. Se eu tivesse que bancar uma aposta, não sou como aquelas cartomantes do Gabriel García Márquez que liam a mão e profetizavam o que iria acontecer, mas se eu tivesse que apontar agora, apontaria Vila e Beija-Flor em uma briga ferrenha”.

    GRANDE RIO. “Enredo interessante. É aquele negócio, não é só o Mangue, o Mangue é uma referência para espalhar suas antenas pela cultura popular. Gosto da evocação que fazem da lama do Mangue, da ancestralidade Nanã, trecho do samba que acho muito bonito. É um samba que estou curioso para ver”.

    SALGUEIRO. “Rosa (Magalhaes, carnavalesca homenageada) foi uma artista muito conhecida na Imperatriz, fez história, foi a primeira tricampeã do sambódromo, fez desfiles memoráveis na década de 1990 e, de repente, é homenageada pelo Salgueiro. Mas a Rosa, primeiro, vem de uma tradição da Escola de Belas Artes, da UFRJ, que chega à cultura popular das escolas de samba via Fernando Pamplona, através do Salgueiro. Rosa tem uma ligação umbilical com Salgueiro, sem dúvida. E também fez carnavais interessantíssimos na Estácio. Mas é a Imperatriz, né? Agora: é uma homenagem legítima à figura exponencial de Rosa Magalhães. E é bonito fechar o Carnaval com uma figura tão importante”.

    Sobre o programa semanal da coluna GENTE. Quando: vai ao ar toda segunda-feira. Onde assistir: No canal da VEJA no Youtube, no streaming VEJA+, na TV Samsung Plus ou no canal VEJA GENTE no Spotify, na versão podcast.

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