Ivanir dos Santos analisa feito da TV Globo com novela sobre realeza negra
Ativista e pesquisador de 71 anos é o entrevistado da coluna GENTE
Sacerdote de Candomblé, sob título de babalaô, a autoridade máxima do terreiro, responsável pela liderança espiritual, administração e preservação dos rituais, Ivanir dos Santos, 71 anos, também acumula outros importantes postos de comando. É pesquisador, professor e ativista brasileiro, reconhecido pelo trabalho de mais de quatro décadas em defesa dos direitos humanos, combate ao racismo e à intolerância religiosa. Pós-doutor em História Comparada pela UFRJ, onde também atua como interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, ele foi um dos idealizadores da série documental Resistência Negra (Globoplay, 2023). Em 2026 participou de festivais e debates culturais. Convidado do programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal da VEJA no Youtube, na TV Samsung Plus – canal 2059; LG – canal 126; TCL – canal 10031; e Roku – canal 221, além da versão podcast no Spotify), Ivanir analisa, entre outros assuntos, a representatividade negra na TV Globo diante dos avanços recentes. Tudo isso à luz da estreia de A nobreza do amor, nova novela da emissora, que traz história sobre uma realeza africana. Assista.
OBAMA E MICHELE: “O racismo praticado por Trump não é diferente se você olhar o mundo como um todo, a globalização, esse tipo de gesto na atualidade. Você vê a repercussão maior, porque é um ex-presidente e uma ex-primeira-dama, porque mostra que o negro, independentemente do lugar que chegue, continua sendo negro numa sociedade com valores eurocêntricos, hierarquizada, que animaliza os negros, boçaliza os negros”.
NEGRO NA TV. “Chamo a atenção primeiro do Teatro Experimental Negro, que criticava a falta de protagonismo negro no teatro. Isso é um exemplo importante. Foi a partir do Teatro Experimental Negro que se criou um grupo de atores e atrizes negros que acessou a televisão nos anos 1960. Era garoto, aluno da FUNABEN, mas assistia à novela Cabana do Pai Tomás. O protagonista era o Sérgio Cardoso, um branco pintado de preto. Isso gerou, naquela época um protesto dos atores negros liderado pelo Milton Gonçalves, Jorge Coutinho, Haroldo Costa, Antonio Pitanga, Léa Garcia, Gil de Souza. Gerou um debate muito sério. Era muito comum também nos Estados Unidos se fazer isso. Pegava o ator branco e o pintava de preto”.
CENÁRIO ATUAL NA TV. “Hoje, o cenário é diferente. Há uma sequência de novelas que tem o protagonista negro. Mesmo assim, com conflitos no final das tramas. Duas vezes, teve duas atrizes negras importantes, tiveram recentemente o final do desfecho com brancos tendo mais… O que mostra é que tem uma tensão, não só de direção, mas uma tensão de autoria. O que chama a atenção é estou também esperançoso que agora vai ter a primeira novela referenciada na África (A nobreza do amor, da TV Globo)”.
DIRETORES NEGROS. “Há uma ascensão de diretores negros. Um dos que escrevem essa novela das 6 é Elísio Lopes Jr., uma pessoa comprometida. Lázaro Ramos está na novela. O que me deixa tranquilo, porque são pessoas que não aceitam papel que humilha, porque os negros não são diferentes das pessoas brancas a nível de valores. Você vai ter pessoas boas, más, ruins em todos os lugares. Não se pode fazer uma narrativa que (negro) só é ruim e submisso”.
A NOBREZA DO AMOR. “Já vamos novela falar da Itália, Espanha, Portugal, mas não fala da África. Então esta é a primeira e olha que está falando de um grupo étnico na África, porque a novela é uma narrativa voltada para uma descendência Yorubá. E tem outros vários, imagina quando enxergar as histórias brancas chegadas na televisão que dialogam com a grande massa do povo brasileiro”.
IMPORTÂNCIA DAS COTAS. “A cota, querendo ou não, trouxe uma ascensão do grupo negro na sociedade. E querendo ou não, uma base embrionária para ampliação de uma classe média negra. A classe média intelectual existia, era invisível e muito pequena. Hoje você cria um consumidor que tem mais instrução, mais acesso à educação, vai ser mais exigente. Isso está no bolso da discussão, que ainda não está nos espaços de mercado de trabalho. (…) Se você não muda a estrutura, se não muda a estrutura social brasileira, essa pressão vai aumentar. Há uma massa crítica muito mais bem preparada do que na nossa geração, para enfrentar o racismo estrutural do Brasil”.
MERITOCRACIA. “Eu, filho de prostituta, criado no Serviço de Assistência ao Menor (SAM) e na Fundação Nacional de Bem-estar do Menor (Funabem), colégio interno, fui trabalhador, pós-doutor na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas se eu tivesse condições anteriormente, se conseguisse ser pós-doutor e professor, por exemplo, você imagina onde eu estaria? Então, mérito não é privilégio. As pessoas confundem privilégio com mérito, porque a sociedade criou privilégios. Até hoje é uma sociedade de privilégios, e a questão racial está envolvida nisso”.
Sobre o programa semanal da coluna GENTE. Quando: vai ao ar toda segunda-feira. Onde assistir: No canal da VEJA no Youtube, no streaming VEJA+, na TV Samsung Plus ou no canal VEJA GENTE no Spotify, na versão podcast.





