Biafra sobre empobrecimento da MPB: ‘Que música da Anitta emociona?’
Sucesso nos anos 1980, o cantor conversou com a coluna GENTE sobre as produções musicais atuais - de Ludmilla a Roberto Carlos

Sucesso musical dos anos 1980, Maurício Pinheiro Reis, conhecido como Biafra, 67 anos, não tem visto um cenário positivo para a música brasileira. O cantor, que é membro de um grupo com mais de setenta compositores de diferentes gêneros, encabeça um movimento que protesta contra a falta de diversidade nas produções atuais, dominadas pelas plataformas digitais no ensurdecedor barulho das redes sociais. Seus maiores sucessos, Leão Ferido e Sonho de Ícaro, renderam-lhe dois Discos de Ouro. Compositor de temas de novelas, lançou 14 álbuns, que venderam mais de 8 milhões de cópias ao longo da carreira. Em entrevista à coluna GENTE, diz que o Brasil passa por um “empobrecimento da cultura nacional”, dispara contra o que chama de “músicas sem qualidade e que não trazem reflexões importantes”. Entre seus alvos, Anitta. Confira a seguir.
Qual é o cerne de discussão do grupo de compositores do qual o senhor faz parte? Esse grupo tem vários artistas do Brasil, tem o Paulo Façanha, o José Miguel do Norte… O movimento é pela diversidade da música, pela pluralidade da música brasileira. De uns tempos para cá, só um tipo de música tem ocupado as plataformas. Esse pessoal está empenhado em lutar pela abertura de espaço para a música brasileira tal como a gente conhecia, com uma letra, com uma mensagem e com uma melodia.
E que tipo de música é alvo da crítica do seu grupo? São as músicas que estão inundando as plataformas, é só escutar. Não quero fazer juízo de valor, dizer que a música é ruim ou boa, mas só um determinado tipo de música está sendo feita, e o que está valendo para essa coisa não é a qualidade, mas a quantidade lançada na plataforma. O Brasil virou commodity, mercadoria. Se você lançou uma música agora, daqui a quinze dias lança outra. Empresas estão monopolizando o espaço das plataformas e tirando o espaço da riqueza e da diversidade da música popular brasileira. Nossa música popular brasileira era respeitada no mundo inteiro. Os verdadeiros cantores e compositores que estão surgindo estão sem espaço para mostrar suas obras.
Seriam as músicas do Tik Tok, por exemplo? Entre outras coisas. O critério de qualidade desapareceu e os artistas, de forma geral, estão preocupados com isso. Tem que ter espaço para outras coisas também para salvar a cultura nacional, estamos vivendo o empobrecimento da cultura nacional. O que acontece é um emburrecimento do povo brasileiro, há toda uma campanha de manter o povo brasileiro ignorante escutando essas coisas.
É muito diferente da sua época? É totalmente diferente. Por exemplo, quando comecei a carreira, eu escutava Milton Nascimento, Phil Clark, Fagner… Quando você escuta uma coisa de boa qualidade, vai tentar fazer uma coisa de boa qualidade. A gente tem que estimular as pessoas a procurarem ler bons livros, a escutar boa música. Isso deveria começar nas escolas.
Hoje quem domina o cenário musical são nomes como Anitta, Ludmilla e Luisa Sonza. O que acha delas? Não sou dono da verdade. Quem sou eu para ficar julgando se Anitta é boa ou se Ludmilla não é boa? Quem tem que julgar é o público. Mas quero que você me diga: que música da Anitta ficou na sua cabeça nos últimos cinco anos, além da ‘poderosinha’? Qual é a música que você escutou da Anitta que te emocionou nos últimos cinco anos? Posso dizer várias músicas do Chico Buarque, várias do Caetano…
Hoje, Anitta é o nome nacional mais forte no exterior, papel que já foi de João Gilberto, Tom Jobim… O que essa mudança fala sobre os tempos atuais? A música do Tom Jobim aconteceu na década de 1960 e está aí até hoje. Não quero dizer que não, mas será que Anitta vai estar aí daqui a vinte, dez anos? Tenho minhas dúvidas. Vejo que é preciso mostrar outro tipo de música para a garotada, para conhecerem um pouco de música erudita. Hoje vivem a cultura da internet.
A “vulgaridade” está na moda? A vulgaridade é o produto da decadência cultural do país, da decadência educacional do país. Isso tem que ser mudado nas escolas, as crianças precisam ter contato com coisas construtivas, e não é isso que a gente está vendo. Vemos o Brasil cada vez mais sendo dominado pelo crime organizado e as crianças crescendo nesse ambiente. Sinceramente, isso me deprime, esse não é o Brasil que eu quero.
O que o senhor tem feito a respeito? A polarização que a gente está vivendo no Brasil separa famílias, destruindo amizades e o Brasil. A gente planeja, mas está no terreno das ideias ainda, das utopias, fazer um abraço afetivo em Brasília. Queremos invadir a Praça dos Três Poderes, não para quebrar, mas para vir com propostas de construção para o Brasil. Precisamos de propostas de construção, juntar artistas de todos os tipos, professores, poetas e fazer um grande abraço afetivo da nação. O Brasil precisa de afeto.
O senhor faria campanha para algum partido? Não falo de política partidária. A arte transcende, passa por cima da política, principalmente da política partidária. Temos que parar de falar de Lula e Bolsonaro, temos que começar a falar de Brasil, de povo brasileiro, de educação, de saúde. Isso é muito empobrecedor, a gente está perdendo um tempo enorme sendo manipulado pelas redes sociais, que ficam jogando um contra o outro.
A MPB da sua época morreu? Não, a MPB está mais viva do que nunca. A cada dia me surpreendo com pessoas, a MPB não está morta. O que acabou é o espaço para isso, porque de repente não interessa mais uma música que faz o povo refletir, que faz o povo pensar. Hoje, o que importa é o número de visualizações, de seguidores. Essas coisas começaram a ter mais importância do que a mensagem.
O senhor não gostaria de ter música viralizada nessas plataformas? Não vou fazer uma coisa que não acredito, só para ficar na moda, só para ser moderninho. O TikTok é uma ferramenta. A máquina reproduz aquilo que é feito, não cria, a não ser a inteligência artificial do Elon Musk. O Musk já falou que um ator de inteligência artificial faria a mesma coisa que um ator de Hollywood, eles agora querem colocar robôs. Mas as músicas feitas por inteligência artificial são muito pobres. Pessoas como Mark Zuckerberg e Elon Musk exercem péssima influência nos jovens. Basta ver as aparições dele fazendo sinal nazista… Essas declarações, esse tipo de mundo que propõem é extremamente nocivo.
Artistas como Djavan e Roberto Carlos não produzem novas músicas há algum tempo. Há uma falta de criatividade dos veteranos? Não é falta de criatividade, acho muito pouco provável que Djavan e Roberto Carlos deixem de ser criativos. O que existe é uma falta de espaço para eles produzirem. Eles não estão aceitando essa coisa proposta como nova cultura das redes sociais. Eles preferem escutar aquilo que sempre escutaram e gostaram, e isso não traz estímulos para uma nova criatividade.