A guinada conservadora na programação da TV Globo
Emissora aposta cada vez mais em conteúdos sobre família e fé
A TV Globo vive um movimento cada vez mais visível de mudança em sua linha editorial que tem chamado atenção do público, do mercado e de especialistas em televisão. Depois de um período marcado pelo avanço de discursos ligados à diversidade, sobretudo nas telenovelas, a emissora passou a investir, nos últimos anos, em produtos voltados a um público mais conservador, especialmente religioso e do interior do país.
A mudança aparece tanto na dramaturgia quanto no entretenimento. A contratação de Eliana, historicamente associada à TV familiar dominical, é um dos exemplos mais evidentes deste reposicionamento. Em Família com Eliana, seu programa exibido aos domingos, foca basicamente em fé, raízes culturais e no modelo familiar mais tradicional, formado por pais e filhos.
O mesmo movimento é observado na abertura de espaço à música sertaneja. O programa Viver Sertanejo, comandado pelo cantor Daniel, artista há décadas associado à imagem da “família brasileira” na TV aberta, reforça essa estratégia de aproximação com um público mais tradicional. Na dramaturgia, a tendência também se reflete em Coração Acelerado, atual novela das 7, que mergulha no universo sertanejo, em conflitos familiares clássicos e em personagens ligados aos “bons costumes”. A personagem Zilá (Leandra Leal), por exemplo, é descrita dentro da trama como conservadora.
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Ao mesmo tempo, a emissora dá sinais evidentes de recuo em pautas identitárias, como em Vai na Fé (2023). A novela das 7 polemizou quando surgiram rumores de cortes em cenas de beijo entre personagens lésbicas. Embora tenha ido ao ar depois, a repercussão alimentou acusações de “freio” na representação LGBTQIA+ em novelas da emissora. A percepção foi reforçada pouco tempo depois com a redução do espaço dado ao casal lésbico no remake de Vale Tudo (2025).
Outro símbolo dessa guinada é o espaço ampliado concedido a Juliano Cazarré. Conhecido por posições religiosas conservadoras, o ator continuou recebendo destaque em produções mesmo após declarações controversas sobre pandemia, feminismo e masculinidade, especialmente em torno do evento recente anunciado por ele como o “maior encontro de homens do Brasil”.
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Nos bastidores, a avaliação é de que essa movimentação está longe de ser casual. A Globo tenta reconstruir laços com uma audiência que passou a rejeitar a emissora nos últimos anos, sobretudo evangélicos e setores conservadores. O alerta teria sido reforçado pelo levantamento Brasil no Espelho sobre “brasilidade”, realizado em 2025. Na pesquisa, 96% dos entrevistados afirmaram que “família é a coisa mais importante da vida”, enquanto outros 96% disseram que “Deus está no comando da sua vida, têm fé e, por isso, acreditam que tudo vai dar certo”.
Com esses dados em mãos, a emissora passou a apostar em conteúdos menos do ponto de vista ideológico, fortalecendo narrativas familiares, religiosas e populares, numa tentativa de recuperar conexão com um público em um país cada vez mais polarizado.





