A falta que faz o Ensino Superior aos maiores influenciadores do Brasil
De Anitta a Virginia Fonseca: coluna GENTE fez levantamento entre os nomes com mais destaque nas redes sociais
Entre os maiores influenciadores do Brasil, são poucos os que possuem formação técnica ou ensino superior. A maioria atraiu a atenção do público brasileiro e alcançou projeção nacional sem universidade, movimentando bilhões em publicidade e negócios próprios. Sem um curso superior específico, dificilmente é desenvolvido um senso crítico aliado a visões de negócios que possibilitem gerenciamento de crise, olhar apurado para soluções e formação técnica para conhecimento da área de atuação.
Entre os criadores digitais em cada categoria, Virginia Fonseca é a que mais se destaca. Com 53,7 milhões de seguidores, a empresária concluiu o ensino médio por meio de um supletivo (EJA) e não possui outras formações. Ela começou a trajetória aos 17 anos, gravando vídeos para o YouTube, e aos 21 anos já tinha conquistado a independência financeira com o trabalho on-line. Nada, porém, a fez se bloquear dos problemas com produtos próprios lançados – volta e meia é processada por consumidores. Também foi envolvida na CPI das bets, em que precisou explicar seu envolvimento com jogos online ilegais. Na mesma vibe, Zé Felipe (33,9 milhões de seguidores), que não concluiu o ensino fundamental, tendo abandonado os estudos aos 14 anos na sétima série, após ser reprovado na mesma série três vezes.
Outro nome que ficou em evidência em 2025 foi o de Felipe Bressanim Pereira, mais conhecido como Felca. Com 18,7 milhões de seguidores no Instagram, ele publicou um vídeo no canal dele no Youtube, denunciando o influenciador paraibano Hytalo Santos por exploração de menores. Mesmo com o forte senso crítico, Felca não possui formação superior. Outro sem Ensino Superior é o próprio Hytalo. Até o Instagram do influenciador sair do ar, ele tinha mais de 17 milhões de seguidores na plataforma e 2,4 milhões no TikTok. No YouTube, eram mais de 5 milhões de seguidores. Hytalo e o marido, Israel Vicente, são réus por produzir conteúdos pornográficos com adolescentes.
Em Moda e Estilo, Camila Coelho (10,4 milhões de seguidores) e Malu Borges (3,1 milhões de seguidores) se destacam. A primeira, não possui formação acadêmica superior formal, tendo iniciado sua carreira na área de beleza através de um curso de maquiagem. Já a segunda, estudava Nutrição, mas decidiu largar a faculdade no último período. Já em Beleza e Cosméticos, Bianca Andrade (19,2 milhões de seguidores) começou a se interessar por maquiagem na adolescência e fez um curso no SENAC; já Mari Maria (21,7 milhões de seguidores) é formada em estética e cosmetologia. Para todas, um curso superior seria capaz de abrir diversas vantagens, incluindo o desenvolvimento de conhecimento especializado e habilidades técnicas na área escolhida, maior empregabilidade e potencial de novos lucros. Além, é claro, de uma comunicação mais responsável com seu público.
Na linha do humor, Whindersson Nunes (57 milhões de seguidores) não possui formação acadêmica formal completa; ele abandonou o ensino médio aos 15 anos para se dedicar à carreira artística. Carlinhos Maia (36 milhões de seguidores) lançou, em parceria com o Centro Universitário UNIFAEL, um curso de extensão universitária em marketing de influência, mas não possui formação acadêmica em ensino superior. Para ambos, é bem vindo e mais do que necessário um senso crítico a respeito do conteúdo que divulgam e influenciam fazendo graça com temas do momento.
Diferentemente de todos os citados acima, Anitta (63,2 milhões de seguidores) é formada em Técnico em Administração pela Faetec. Ela concluiu o curso técnico aos 16 anos e, na época, já fazia estágio em uma mineradora. Tem até dado palestras em conceituadas universidades. A cantora (e influenciadora) é um raro exemplo de quem se preparou para desbravar o território digital com as ferramentas certas.
Ganhos precisos
No geral, pode-se avaliar que a ausência de formação em Ensino Superior entre os influenciadores digitais costuma se refletir, antes de tudo, numa limitação de abrangência crítica de seus conteúdos. A universidade não serve apenas para transmitir conteúdo técnico, mas para ensinar a problematizar, argumentar, contextualizar e lidar com contradições. Quando essa base falta, parte do conteúdo produzido nas redes tende a ser mais raso, baseado em opiniões pessoais, senso comum ou tendências momentâneas, especialmente ao tratar de temas complexos como política, saúde, comportamento social ou economia.
Outro ponto sensível a ser levantado é a credibilidade pública. Muitos dos influenciadores se tornam “referência” no que transmitem apenas pelo número de seguidores que agregam em seus perfis. Mas, claro, isso não deveria ser suficiente para dar a eles status de conhecimento especializado. Numa análise mais aprofundada, percebe-se que a ausência de formação acadêmica fragiliza a autoridade do influenciador, mesmo quando ele tem grande alcance de recepção. O público passa a consumir discursos que se apresentam como informativos ou educativos sem o respaldo técnico necessário, o que contribui para a circulação de desinformação e para a confusão entre experiência pessoal e conhecimento validado.
Há ainda um impacto direto na longevidade e profissionalização da carreira. Influenciadores com formação acadêmica tendem a diversificar sua atuação, transitando com mais facilidade entre o universo digital e o institucional, seja por meio de palestras, livros, colunas, consultorias ou projetos culturais. Já aqueles sem formação superior depender mais da lógica do algoritmo, da exposição constante e de tendências voláteis, o que pode tornar a carreira mais instável ao longo do tempo. Sem uma base de conhecimento preciso, portanto, muitos terão “tempo de validade” enquanto a própria rede social assim desejar.
Por fim, é importante reconhecer que a falta de diploma não impede o sucesso nem invalida a produção de conteúdo. Muitos influenciadores desenvolvem habilidades comunicacionais, criativas e empreendedoras extremamente eficazes fora dos bancos das universidades. O problema não é a ausência do ensino superior em si, mas quando essa ausência não é compensada por estudo contínuo, senso crítico e responsabilidade. Nesse sentido, a formação acadêmica não é uma exigência, mas segue sendo um diferencial relevante para elevar o nível do debate público nas redes. Algo cada vez mais exigido após o oba-oba inicial que elas mesmas propuseram com a democratização das publicações. É preciso dar um passo além.





