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‘A civilização dificilmente examina as raízes bárbaras que a constituem’

O teórico Sócrates Nolasco, que lança o livro ‘Não Matarás’, analisa o ódio aos judeus na interseção entre a história e o inconsciente

Por Valmir Moratelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 31 jan 2026, 13h00 •
  • Uma análise do ódio ao judeu nos conduz a dois elementos que o acompanham: a obsessão e o excesso, ambos postos a serviço da transformação da imagem do judeu em algo monstruoso. Trata-se de uma imagem inserida no imaginário social que atravessou séculos para chegar intacta aos dias de hoje. Uma vez fundido, cada um desses elementos compõe a motivação do antissemita, que os desconsidera em prol do conforto de sua própria indignação para reivindicar uma ‘justiça’ entendida, em última instância, como a eliminação do judeu. O excesso e a obsessão servem para encobrir o que nutre e preserva esse ódio secular. A civilização dificilmente examina as raízes bárbaras que a constituem ou, ainda, as conexões que tais raízes possuem com as máscaras usadas para negá-las ou dissimulá-las. Do judeu se exige o que não se exige de nenhum outro grupo humano; o olhar de julgamento que incide sobre ele é de um rigor não encontrado em relação a qualquer outro agrupamento social. Assim, esse tipo de ódio torna-se funcional: cumpre a missão de proteger a civilização de si mesma, da ‘besta’ que reside nela e que se faz presente dentro de cada um. A besta manifesta-se frequentemente quando é frustrada, interditada ou obrigada a deparar-se com sua própria dimensão. ‘Não Matarás’ não é apenas uma regra religiosa; é uma tecnologia simbólica de contenção da besta da qual surgiu a humanidade. Ao longo da história, estima-se que tenham morrido em guerras aproximadamente 1 bilhão de pessoas. No psiquismo humano, encontramos as raízes da bestialidade materializadas na profundidade da matéria. A besta que carregamos utiliza circuitos neurais antigos, que nos prepararam para o ataque, para o medo do desconhecido e para a proteção violenta do nosso grupo contra o ‘outro’. O antissemitismo, visto por essa perspectiva, é a ativação dessa besta: o ódio tribal que desliga a empatia e ignora a humanidade alheia. No cotidiano, suas raízes são ativadas pelo desconforto diante da Lei que castra e se impõe como condição de existência da própria humanidade. Sem a Lei, a humanidade ficaria à mercê do prazer sem limites. Como preservar a ilusão de que é possível viver esse prazer sem ser visto como um predador desenfreado? Como livrar-se das consequências das próprias escolhas? Esta é a função do antissemitismo: ele tornou-se necessário para que múltiplas contradições sejam colocadas debaixo do tapete, permitindo que as ‘bestas’ se sintam como ‘santas’. No livro Não Matarás (ed. Jaguatirica), essas raízes são dissecadas para que os pontos de interseção entre a história e o inconsciente sejam revelados. (Por Socrates Nolasco)

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