O vazamento truncado de uma reunião do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, com investidores nesta sexta-feira, em São Paulo, causou um clima de pânico no mercado financeiro. O dólar fechou a R$ 5,32, maior valor desde o início do governo Lula, os juros futuros subiram e a bolsa de valores fechou em queda de 1,73%. Pelo relato de alguns investidores que participaram da reunião, o ministro teria reconhecido que não controla a agenda econômica. O que ele de fato disse foi que as decisões para contingenciar os gastos dependem do presidente Lula — que é fato conhecido.
O encontro promovido pelo banco Santander contou com a participação de representantes de outros treze fundos e corretoras. Em determinado momento da exposição do ministro, alguns participantes passaram a distribuir o que estava sendo dito por WhatsApp, como se fossem as informações de uma agência de notícias.
Várias das informações estavam erradas. Ao responder, por exemplo, o que faria se o presidente Lula recusasse todas as alternativas para conter gastos, Haddad disse rindo que iria “pedir para sair”. Nos grupos do mercado financeiro o que era uma brincadeira acabou surgindo como uma ameaça de demissão do ministro. Noutro momento, Haddad disse, sem citar nomes, que havia resistências ao contingenciamento de gastos. Nas redes de WhatsApp, a fala foi compreendida como uma crítica ao chefe da Casa Civil, Rui Costa.
De acordo com seis pessoas que participaram do encontro, Haddad não fez anúncio novo na conversa. Ele reforçou a preocupação com o aumento nos gastos na Previdência e assistência social e disse que os Ministérios da Fazenda e Planejamento tinham estudos para conter as despesas obrigatórias, fato já discutido em entrevistas pela ministra Simone Tebet e o secretário do Tesouro, Rogério Ceron. No cenário apresentado, se o crescimento desses gastos obrigatórios, especialmente de saúde e educação, não sofrer uma trava, haverá a necessidade de cortes em outras áreas, como o PAC. Haddad disse que iria discutir o tema com o presidente Lula nas próximas semanas, antes do envio do Orçamento de 2025.
O resultado da reunião mostra o dilema do governo em tratar um mercado à beira de um ataque de nervos. Haddad poderia mentir e dizer que já tem o apoio de Lula e, eventualmente, perder a sua credibilidade se o presidente não bancar a sua proposta, ou ser cauteloso e apresentar um cenário incerto. Preferiu a segunda opção e a sinceridade foi punida.
Desde maio, o real é a moeda com pior desempenho em relação ao dólar, as expectativas de inflação estão beirando os 4% e a B3 é a bolsa de valores com os piores resultados no mundo. Como num acidente de avião, as causas desses resultados são múltiplas: o adiamento na queda de juros nos EUA, a mudança da meta fiscal de 2025, a troca de presidente na Petrobras, a divisão nos votos no Copom, o aumento nos gastos com Previdência e assistência social empurraram Haddad para o corner.
A história mostra que ministros da Fazenda nesta situação raramente recuperam sozinhos o poder de acalmar o mercado. Precisam de uma grande vitória no Congresso ou o apoio público do presidente para a sua agenda. No ano passado, Haddad teve os dois eixos e a ajuda do STF em julgamentos cruciais. Agora, ele precisa ao menos ter o aval expresso de Lula para colocar a bola no chão.