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. Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

Só há lugar para um

Moro e Doria terão de se unir, e rápido, se quiserem montar um chapa para enfrentar Bolsonaro, Lula e Ciro

Por Thomas Traumann Atualizado em 1 dez 2021, 15h49 - Publicado em 1 dez 2021, 12h33

Existe um consenso nas pesquisas de que há um mercado de eleitores que não quer votar nem em Jair Bolsonaro, nem em Lula da Silva, nem em Ciro Gomes. São no geral eleitores de classe média dos estados de São Paulo e da Região Sul, majoritariamente de eleitores arrependidos de Bolsonaro e que teriam um nicho entre 12% e 15% dos votos, dependendo da pesquisa. Não é um ponto de partida ruim, mas só vai chegar a algum lugar se só houver um único candidato que represente essa faixa chamada de “terceira via”, que vai da direita conservadora à centro-direita liberal. Em português: entre Sergio Moro, João Doria, Rodrigo Pacheco, Alessandro Vieira, Simone Tebet, só há lugar para um.

Na semana que vem, os líderes da terceira via, o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro e o governador João Doria, se reúnem pela primeira vez desde que ambos se tornaram candidatos. Até uns meses atrás, Moro toparia fácil renunciar à candidatura, mas o sucesso da sua entrada na campanha lhe envaideceu.

Moro é mais conhecido e tem uma torcida barulhenta nas redes sociais que Doria. Também pontua melhor nas pesquisas, entre 8% e 11%, empatado com Ciro Gomes e distante do vice-líder Jair Bolsonaro. Em compensação, a única experiência administrativa de Moro foi no Ministério da Justiça, que foi um desastre. Ele tem relação que varia entre ruim e péssima com os políticos. Não chega a ser surpresa, afinal a Lava Jato foi a precursora da antipolítica que ajudou a eleger Bolsonaro. Além disso, o conhecimento de Moro sobre economia é tatibitate, uma brecha quando as maiores preocupações da sociedade são inflação e desemprego.

Doria, por sua vez, é um paradoxo. Não fosse a sua ousadia, a vacinação contra a Covid-19 teria atrasado ainda mais, ceifando dezenas de milhares de pessoas. Foi a sua insistência na parceria com o laboratório chinês Sinovac que obrigou o governo Bolsonaro a se mover, encomendar vacinas e tratar a pandemia com um mínimo de responsabilidade. Também ao contrário das promessas sem lastro do governo Bolsonaro, Doria entregou reformas estruturais na previdência e na administração de São Paulo e hoje o Estado cresce em ritmo mais forte do que antes da pandemia.
Só que Doria tem uma personalidade tão egocêntrica que ele não consegue faturar nada disso. Para os políticos, ele não cumpre acordos (e a forma como abandonou Geraldo Alckmin em 2018 é apenas o exemplo mais vistoso). Para muitos eleitores, é um oportunista. O grau de antipatia de Doria tão alto que durante as primárias do PSDB a sua equipe de comunicação brincou isso, criando uma peça publicitária na qual ele é chamado de “chato” e “marqueteiro”.

Só que isso não vai funcionar em uma campanha nacional. Apesar de toda a exposição com a vacinação, Doria pontua entre 2% (Ipespe e Quaest), 4% (Ideia) e 5% (PoderData), um índice de partida desprezível para quem quer ganhar. Ou Doria muda a sua estratégia de cabeça para baixo ou a sua campanha será engolida por Sergio Moro.

A terceira via tem um problema de princípio. Seus articuladores acreditam que basta surgir um nome para que ele seja ungido o próximo presidente. É um misto de arrogância e ignorância. Bolsonaro e Lula possuem, cada um a seu jeito, uma ligação profunda com o eleitorado brasileiro e não há indicações sérias de que milhões de eleitores pretendam abandonar um dos dois para ficar com um terceiro candidato. Isso vai requerer um trabalho árduo de convencimento que, por enquanto, nem Moro, nem Doria, não começaram.

Todas as pesquisas mostram que Lula da Silva já está no segundo turno e, portanto, a única chance de a direita liberal chegar ao segundo turno é superar Bolsonaro. Mas para isso, os candidatos precisam (1) se juntar em torno de um único nome; (2) fazer alguma proposta que pare de falar para a turma da Faria Lima e comece a se dirigir para a turma do Largo da Batata, os milhões de eleitores preocupados com o futuro da economia real. A pesquisa Ipespe divulgada na sexta-feira, por exemplo, mostrou que 69% dos entrevistados acham que a economia está “no caminho errado”. No PoderData, a avaliação do governo Bolsonaro piorou: 57% acham o trabalho do presidente ruim e péssimo e só 22% acham bom, a maior diferença desde o início do governo; (3) remontar suas estratégias de redes sociais; (4) montar os palanques de candidaturas nos Estados. Em todos esses quesitos, Moro e Doria estão atrasados em relação a Bolsonaro e Lula.

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