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Thomas Traumann

Thomas Traumann é jornalista e consultor de risco político. Foi ministro de Comunicação Social e autor dos livros 'O Pior Emprego do Mundo' (sobre ministros da Fazenda) e 'Biografia do Abismo' (sobre polarização política, em parceria com Felipe Nunes)
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Dividir para reinar

Ao afagar Tarcísio, Lula tenta separar a direita moderada de Bolsonaro

Por Thomas Traumann Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 9 Maio 2024, 10h41 - Publicado em 3 fev 2024, 13h10

Foi como uma aranha construindo a sua teia.

Primeiro, o presidente Lula da Silva informou aos ministros que as obras do túnel submerso de 860 metros que vai ligar Guarujá a Santos seria feito exclusivamente pelo governo federal, com zero participação do governo de São Paulo. A obra, prometida há quase 100 anos, está orçada em R$ 6 bilhões e será a maior no Estado de São Paulo no curto prazo. Excluir o governador tido como potencial candidato antipetista em 2026 seria a repetição do estilo “nós contra eles” dos anos Bolsonaro.

Em horas, a informação estava em todos os sites e o governador Tarcísio de Freitas iniciava uma peregrinação de dias para, primeiro, confirmar a história e, depois, saber se a decisão era reversível.

Na terça-feira, dia 30, depois de dias de suspense, Lula recebeu Tarcísio no seu gabinete no Palácio do Planalto, aceitou a proposta de parceria e o convidou para o anúncio na sexta-feira, dia 2, em Santos. Na cerimônia, os assessores da Presidência instruíram o público (majoritariamente lulista) a não vai vaiar o governador. Mas a teia urdida por Lula era mais sofisticada.

Na hora do discurso, o presidente tratou o eventual adversário de 2026 como um velho amigo.

“É preciso restaurar a normalidade política para atuar em conjunto em programas para o estado, com respeito às diferenças dentro da democracia. Vim anunciar ao Tarcísio que estamos juntos. Em quem ele vai votar é problema dele, em quem eu vou votar é problema meu, mas estamos juntos com o compromisso de servir o povo desse Estado e povo brasileiro”, começou Lula.

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“O Tarcísio trabalhou fazendo o gasoduto Coari-Manaus, quando eu era presidente (2002-2010). Eu encontrei o Tarcísio em Coari, no meio da Amazônia, trabalhando no gasoduto. Depois, Tarcísio trabalhou no Dnit (o órgão federal de obras rodoviárias) com a Dilma Rousseff. Depois, eu estranhei que ele foi trabalhar com o Bolsonaro. Mas paciência, é uma opção dele. E depois ele ganhou, de nós, as eleições. O que eu vou lamentar? Tenho que parabenizar e preparar para derrotar vocês nas próximas eleições”, disse Lula, se dirigindo ao governador.

Durante o discurso do presidente, houve gritos na plateia de “Volta para o PT, Tarcísio”. Todos riram, incluindo Lula e Tarcísio.

O evento de Santos poderia terminar como uma anedota para intrigar Tarcísio junto ao ex-presidente não revelasse uma estratégia bem articulada de como Lula pretende navegar na polarização extrema do Brasil. Em entrevista à Rádio CBN Recife, na terça-feira, dia 30, Lula disse que “a polarização é boa”, mostra que a “sociedade está viva” e que a eleição municipal de outubro será um novo confronto entre ele e Bolsonaro. “Entre eu e a figura”, afirmou, sem citar Jair Bolsonaro.

Este é o pulo do gato. Lula quer isolar Bolsonaro do resto da oposição antipetista. O presidente identificou dois núcleos, de um lado os extremistas liderados pelo ex-presidente e capazes de barbaridades como o vandalismo do 8 de Janeiro e do outro a oposição que bate acima da cintura e com quem é possível fazer acordos administrativos. O fato de o principal interlocutor político de Tarcísio ser Gilberto Kassab, que tem três ministros no governo Lula, é uma garantia de canal de diálogo.

É uma tática requintada porque empurra Tarcísio de Freitas para uma situação incômoda. Como governador ele precisa de acordos com o governo federal, mas qualquer aproximação é vista como traição dentro do extremismo bolsonarista. Desde o ano passado, quando Tarcísio negociou o apoio da bancada paulista à reforma tributária, o entorno do ex-presidente tem reservas ao governador. Há uma insistência deste entorno de que o poder de Bolsonaro está em liderar uma massa radical, não na política tradicional.

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Esta fé no engajamento da extrema direita explica a decisão do PL de manter o deputado federal Alexandre Ramagem como candidato a prefeito no Rio, apesar das investigações de espionagem ilegal, o radical Nikolas Ferreira como candidato em Belo Horizonte e do ex-ministro Gilson Machado no Recife, além da pressão pela chapa do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, com o ex-comandante da Rota, Mello Araújo.

As pesquisas mostram um momento de alívio para Lula. Levantamento do PoderData mostrou que o governo é aprovado por 49% e reprovado por 42%. No mês passado, a diferença era de 46% a 44%.

A polarização do país, contudo, é inesgotável. A divisão é demarcada por uma pergunta simples, “o governo Lula é melhor ou pior que o de Bolsonaro?”.

51% dos entrevistados preferem Lula, e 39% o inverso. As taxas mais altas entre os que consideram que o governo Lula está melhor que o de Bolsonaro foram registradas entre jovens de 16 a 24 anos (64%), moradores do Sudeste (56%) e pessoas que completaram o ensino fundamental (62%). Os índices dos que preferem o governo Bolsonaro são maiores entre os adultos de 25 a 44 anos (50%) e os moradores do Norte (52%), do Sul (54%) e do Centro-Oeste (61%).

Com o seu núcleo de apoiadores consolidado, a tática de Lula é incentivar os moderados, como Tarcísio de Freitas, e usar a sua força política para derrotar os candidatos mais radicais na eleição de outubro. Dividir para reinar.

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