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Thomas Traumann

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Thomas Traumann é jornalista e consultor de risco político. Foi ministro de Comunicação Social e autor dos livros 'O Pior Emprego do Mundo' (sobre ministros da Fazenda) e 'Biografia do Abismo' (sobre polarização política, em parceria com Felipe Nunes)

Bolsonaro e o poder de caneta

Presidente terá mais dinheiro para gastar em 2022. O que pode dar errado? O próprio governo

Por Thomas Traumann Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 Maio 2021, 12h25 • Atualizado em 26 Maio 2021, 09h40
  • As seguidas pesquisas eleitorais mostrando Jair Bolsonaro em desvantagem para 2022 devem ser analisadas com cautela. É fato que o presidente está acuado – o desemprego é recorde, a inflação de alimentos não para de subir, o país superou 450 mil por Covid e a negligência do governo é castigada dia após dia na CPI da Covid. Pela primeira vez, o presidente tem um adversário do seu tamanho e com a sua capacidade de mobilização popular, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dito isso, o tempo corre a favor do presidente.

    A conjunção astral atual é insustentável. Todos os indicadores antecipam um crescimento da economia no segundo semestre, até por comparação estatística com a catástrofe do ano passado. O pior da contaminação do aumento dos preços das commodities também deve amainar. Depois de duas semanas de depoimentos fortes, a CPI tende a perder audiência, com o cansaço natural do público com a repetição das histórias de como o governo Bolsonaro recusou vacinas, boicotou medidas de lockdown e insistiu na charlatanice das cloroquinas e efeito rebanho.

    Se chegar a 2022 inteiro, Bolsonaro tem condições reais de recuperar seu potencial. Como explicou Álvaro Gribel, em O Globo, o Teto de Gastos terá no ano que vem um crescimento de R$ 109 bilhões, o que nas contas do Instituto Fiscal Independente significa R$ 10 bilhões para gastar como quiser. É muito dinheiro. Basta comparar com o “tratoraço”, o orçamento secreto denunciado pelo Estadão criado pelo governo para privilegiar deputados e senadores da base. O esquema, dezenas vezes maior que o Mensalão, custou R$ 3 bilhões aos cofres públicos e garante a Bolsonaro o controle de quase 300 deputados na Câmara e de mais de 30 no Senado.

    Com mais dinheiro para obras e apoio de dezenas de deputados e prefeitos, Bolsonaro entra na campanha com a caneta cheia e nenhum medo de usá-la. Como admitiu o ministro Paulo Guedes, em entrevista à Folha, 2022 será o ano do “ataque”, com a criação de um Bolsa Família mais robusto e um programa de apoio a trabalhadores informais. Nove entre dez economistas entenderam a frase como um “liberal geral” nos cofres públicos para conseguir a reeleição de qualquer jeito.

    Bolsonaro prometeu que vai isentar os motociclistas de pedágio e assinou medida provisória que libera a pesagem dos caminhões abaixo de 50 toneladas nas rodovias, o que aumenta a degradação do pavimento das estradas e prejudica as concessionárias. Na semana passada, ele já havia dado mais indicação de interferência na gestão da Petrobras (“tem certos preços na Petrobras que não têm cabimento continuar”) e do Banco do Brasil (“o fechamento de agências pelo BB é um crime”).

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    Em um país tão carente, o peso da máquina estatal pode ser decisivo. Em 2020, 62% dos prefeitos candidatos à reeleição tiveram êxito e todos os antecessores de Bolsonaro que disputaram um segundo mandato foram eleitos. O que pode dar errado? O próprio governo Bolsonaro.

    O governo já entregava pouco antes da pandemia e só piorou desde então. A claudicante fila de vacinas contra Covid, o despreparo para uma possível nova onda do vírus e o descompromisso do governo com a verdade cobram um preço nas de pesquisas hoje e, talvez, nas de outubro de 2022 se pouco for feito. Bolsonaro tem chances de voltar a ser favorito para 2022, mas para isso precisa governar melhor.

    + De olho em 2022, DEM e Podemos ensaiam possível aliança

     

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