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Thomas Traumann

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Thomas Traumann é jornalista e consultor de risco político. Foi ministro de Comunicação Social e autor dos livros 'O Pior Emprego do Mundo' (sobre ministros da Fazenda) e 'Biografia do Abismo' (sobre polarização política, em parceria com Felipe Nunes)

Bolsonaro e a politicagem com cadáveres

A operação nas redes sociais para tirar os mortos por Covid-19 do colo de Bolsonaro

Por Thomas Traumann Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 ago 2020, 13h16 | Atualizado em 12 ago 2020, 14h59
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Demorou, mas o governo Bolsonaro concluiu que é impossível esconder os 100 mil cadáveres de brasileiros mortos por Covid-19. Na segunda-feira, a Secretaria de Governo divulgou um ranking destacando o número de mortos nos estados e cidades administradas por adversários. Na mesma noite, o gráfico havia sido transformado em um card como rosto de cada governador ligado a uma caveira. Distribuído aos milhares nas correntes bolsonaristas, o post tem como título “Estes 8 (oito) governadores são responsáveis por 77% das MORTES por Covid-19” e encerrava com a pergunta: “Incompetência ou Genocídio?”. A operação para tirar os cadáveres do colo do presidente está só começando. No mundo de Bolsonaro, o inferno são os outros.

De todos os defeitos do governo nenhum é mais trágico do que a negligência no combate à Covid-19. A displicência como Jair Bolsonaro trata a vida alheia choca até mesmo seus eleitores e a marca dos 100 mil mortos teve um efeito real de lembrar a muitos deles a responsabilidade do presidente. Por isso, a ordem da máquina digital bolsonarista é a de isentar o presidente de responsabilidades.

O ataque aos governadores faz parte de um pacote de três mentiras: na primeira, os posts explicam que o Supremo Tribunal Federal proibiu o governo de agir e delegou a gestão da pandemia aos Estados e Municípios. Bobagem. O que o Supremo foi que a União não poderia tomar decisões sozinhas e que pela Constituição a saúda da população é responsabilidade de todas as esferas de governo. Mas quem no bolsonarismo se incomoda em mentir, né?!

Na segunda, os posts aplaudem a superprodução de cloroquina e destacam quantas vidas poderiam ter sido salvas se o remédio para malária tivesse usado em todos os pacientes. É impossível saber, mas segundo as estimativas da Organização Mundial de Saúde é provável que tivéssemos mais mortes por efeitos colaterais do medicamento. A cloroquina é perigosa e não deveria ser usada sem orientação médica. Mesmo caso do vermífugo Anita.

Na terceira parte, há o ataque em si. Tanto a pesquisa da Secretaria de Governo quanto o post da máquina do ódio bolsonarista são parciais. Destacam que João Doria tem o maior número de mortos (para surpresa de zero pessoas que sabem a população de São Paulo) e citam outros adversários como os governadores Rui Costa (BA) e Wilson Witzel (RJ), mas escondem os nomes de aliados, como Romeu Zema (MG) e Ibaneis Rocha (DF). É o uso da máquina pública para campanha política sem nem se preocupar com as impressões digitais.

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A preocupação da máquina bolsonarista revela que as táticas anteriores (“todo mundo vai morrer, lamento”, “é só uma gripezinha”) não deram certo. Também enganam cada vez menos pessoas o “placar da vida” (sobre número de recuperados), os ataques à China e os truques estatísticos para mostrar o Brasil como um sucesso comparando com outros países de menor população.

São 100 mil vidas desperdiçadas e 3 milhões de contaminados em cinco meses. Este é um desastre sob qualquer perspectiva. Quando o luto passar essas famílias cobrarão seu sofrimento. Bolsonaro está apenas tentando se livrar dos corpos enquanto tem tempo.

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