Golden Globe 2011 – Comentários
A cerimônia de entrega dos prêmios Golden Globe foi realizada ontem à noite em Los Angeles, marcando a fase de transição que a televisão americana está vivendo nesse momento. A cada década uma nova leva de séries é oferecida ao público. Algumas dessas produções ainda não chegaram às premiações, pois estão recém começando (algumas ainda […]
A cerimônia de entrega dos prêmios Golden Globe foi realizada ontem à noite em Los Angeles, marcando a fase de transição que a televisão americana está vivendo nesse momento.
A cada década uma nova leva de séries é oferecida ao público. Algumas dessas produções ainda não chegaram às premiações, pois estão recém começando (algumas ainda nem estrearam, mas já prometem fazer parte desses eventos). A partir de 2012, as listas de indicados aos prêmios da crítica e da Academia deverão definir melhor essas mudanças.
O período de transição nunca é fácil. Tanto para o telespectador, que busca ansiosamente algo novo na TV, quanto para as premiações que, ao retratarem essa mudança, cometem erros. Quem acompanha as séries de TV percebeu, desde o momento da divulgação dos indicados, que não valeria a pena ficar acordado até tarde para acompanhar o evento.
Espera-se da Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood jornalistas que tenham voz mais ativa que os profissionais que valorizam apenas o entretenimento sem se preocuparem com o conteúdo desenvolvido. Pela lista dos indicados, vê-se que neste ano eles não conseguiram se fazer presentes.
Temos como exemplo a categoria de melhor série dramática que, em minha opinião, é a mais importante de uma premiação. Deixaram de fora produções como “Breaking Bad”, “Treme”, “Justified”, “Rubicon” (ok, foi cancelada), “Men of a Certain Age” e “Sons of Anarchy”, mas incluíram “Dexter”, em sua pior temporada, e “The Walking Dead”, a grande decepção crítica do ano.
Desta forma “Boardwalk Empire” disputava o prêmio apenas com “Mad Men”, já que “The Good Wife” se apóia na narrativa processual e não tem um visual artístico, portando suas chances eram menores.
Desde o anúncio da produção de “Boardwalk Empire” a imprensa internacional vem afirmando que a série desbancaria “Mad Men” nas premiações. Antes mesmo de sua estreia, a mídia já a elegia como a melhor série dramática do ano, por ser produzida por Martin Scorsese e criada por Terence Winter, produtor de “A Família Soprano”. Com esse pedigree, dificilmente ela ficaria de fora do circuito de premiações.
De fato, a imprensa internacional não teria como negar o Golden Globe a Scorsese, um cineasta renomado que investe nos seriados de TV. Embora não seja melhor que “Mad Men”, “Boardwalk Empire” é muito boa. Tanto visualmente quanto no desenvolvimento de roteiro e personagens, o que justifica seu prêmio.
Peca apenas na atuação. Como comentei aqui, os atores da série estão mantendo um distanciamento seguro de seus personagens. Atuando no nível racional, eles estão devendo uma interpretação mais orgânica, que poderia levar “Boardwalk Empire” ao mesmo nível de produções como “Mad Men”, “Breaking Bad”, “Treme” e outras.
Justamente por isso, não há tristeza maior que ver Steve Buscemi tirar o prêmio de melhor ator de Bryan Cranston, que neste último ano ofereceu seu melhor desempenho, até agora, com “Breaking Bad”. Ver Buscemi ganhar por sua atuação insossa chega a ser vergonhoso. Nem mesmo o fato de Katey Sagal ter sido premiada compensou essa decepção. Katey ganhou como uma forma de compensar o erro cometido no ano passado, visto que a atriz teve seu melhor desempenho na segunda temporada de “Sons of Anarchy”.
E agora chegamos às categorias de séries cômicas. “Glee”, com cinco indicações, levou três: melhor série e melhores atores coadjuvantes. Ao longo de dois anos o Golden Globe premia uma produção de conteúdo fraco e que vem despencando em sua qualidade a cada episódio exibido.
Considero “Glee” a “Barrados do Baile” dos dias atuais. Quem acompanhou a evolução dos seriados não se deixa levar pela propaganda que acompanha a série, classificada de inovadora por abordar temas polêmicos e explorar a diversidade, motivos pelos quais ela estaria sendo tão exaltada e premiada. Estes temas vêm sendo explorados por séries adolescentes desde a década de 1970. A diferença é que hoje os jovens, em especial o pré-adolescente, são mais importantes para a mídia do que eram há 10, 20 ou 30 anos atrás.
Injustiça com “The Big C” e “Nurse Jackie”, que sequer deveriam figurar na mesma categoria que “Glee”. É chegada a hora de separar a comédia da dramédia. Desde que surgiu no final dos anos de 1960, a dramédia evoluiu a tal ponto que não dá mais para mantê-la no mesmo nível que a comédia (que tem a obrigação de fazer rir).
Apresentando o lado cômico de situações dramáticas, a dramédia é lírica e outras vezes irônica, mas não tem a obrigação de arrancar uma gargalhada do telespectador. Esse gênero de produção é mais visto na TV a cabo, como o Showtime e a HBO, que produzem material bom o suficiente para preencherem as listas de indicados a premiações, tanto para as séries quanto para seus atores.
Outra questão que incomoda é o fato do Golden Globe colocar na mesma categoria os atores coadjuvantes de séries dramáticas e cômicas. Ao mesmo tempo, separam os protagonistas. Eles devem ter seus motivos, mas não significa que seja uma boa opção.
Laura Linney mereceu seu prêmio por “The Big C”. A atriz faz um belo trabalho com o desenvolvimento de sua personagem, mantendo o equilíbrio entre a situação na qual ela vive e a proposta de oferecer uma história leve. Mas Laura não compareceu ao evento em vista do falecimento de seu pai, o autor teatral Romulus Linney. Segundo o Hollywood Reporter, ele morreu no dia anterior, vítima de câncer no pulmão.
Na ala masculina, Jim Parsons ganhou por seu trabalho em “The Big Bang Theory”. Apesar da série ter decaído em sua qualidade, o ator consegue manter seu desempenho com o personagem, que ainda é a maior atração da sitcom.
A categoria de minisséries premiou “Carlos”, já lançada em versão compacta nos cinemas. Muito bem desenvolvida, a qualidade de seu roteiro superou a favorita “The Pacific”, que é uma versão menor de “Band of Brothers”. Um bom começo para o Sundance Channel que parece interessado em investir na produção seriada.
Por fim, espero que a próxima entrega do Golden Globe não conte com a presença de Rick Gervais como mestre de cerimônias. É um desperdício vê-lo preso a uma função que necessita seguir um protocolo.









