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Por Kelly Miyashiro
Críticas e análises sobre o universo da televisão e das plataformas de streaming
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‘Dahmer’: hit da Netflix expõe dilema perigoso de retratar assassinos

O sucesso da série levanta a questão: até que ponto se deve ou não dar visibilidade a criminosos reais na tela?

Por Amanda Capuano Atualizado em 30 set 2022, 11h32 - Publicado em 30 set 2022, 06h00

Um rapaz branco, alto e loiro recebe a visita do pai na prisão. Acompanhado de um advogado, o idoso entrega ao filho duas revistas com o rosto do homem que ajudou a criar estampado nas capas. “Posso levar comigo para ler?”, pede o prisioneiro, recebendo um não como resposta. “O que estão falando?”, indaga, com uma ponta de prazer. “Que você é o canibal de Milwaukee. E que o querem morto”, exalta-se o pai. Parte da minissérie Dahmer: um Canibal Americano, a cena resume a fascinação do serial killer real com o status de celebridade macabra que ganhou ao assassinar dezessete jovens, entre 1978 e 1991. Produzida pelo corrosivo Ryan Murphy e protagonizada por Evan Peters, famoso por viver psicopatas nas telas, a série reproduz em minúcias na ficção as táticas repulsivas do assassino — incluindo necrofilia, desmembramento das vítimas e até canibalismo.

Meu Amigo Dahmer

O sucesso expõe um dilema ético: do topo dos mais assistidos da Netflix, com 196 milhões de horas vistas mundialmente, a produção dá ao serial killer — com ou sem intenção — uma visibilidade perseguida por criminosos como ele, que empilhou crimes como troféus e que se deleitaria com o “reconhecimento” se estivesse vivo (Dahmer morreu na cadeia em 1994). Com o gênero true crime em alta, assassinos famosos invadiram os cinemas e o streaming, atraindo o público com um misto perigoso de deslumbre e repugnância. A tendência ganhará reforço em 26 de outubro, com o lançamento na Netflix de O Enfermeiro da Noite, em que Eddie Redmayne vive Charles Cullen (esse, ainda vivo), o assassino mais letal dos Estados Unidos, que confessou quarenta assassinatos, mas pode ter cometido 400.

FOFINHO E PERIGOSO - Efron como Ted Bundy: o ator com pinta de galã ajudou a glamorizar o assassino real de mulheres -
FOFINHO E PERIGOSO - Efron como Ted Bundy: o ator com pinta de galã ajudou a glamorizar o assassino real de mulheres – (Brian Douglas/Sundance Institute/.)

Não se trata, claro, de condenar toda produção sobre psicopatas reais. Quando feito de modo responsável, o true crime ilumina temas importantes, como o racismo que levou a polícia a ignorar os alertas dos vizinhos e sobreviventes antes de pegar Dahmer. Mas é fato que a exploração excessiva transforma criminosos em estrelas. Dahmer é tema de filmes e documentários que esmiúçam seus rituais sangrentos desde os anos 1990, entre eles o recente Meu Amigo Dahmer (2017), em que é vivido por Ross Lynch. A Netflix ainda lança, em 7 de outubro, a série documental Conversando com um Serial Killer: o Canibal de Milwaukee. “Minha família está revoltada. Está nos traumatizando mais uma vez. De quantos filmes, séries e documentários precisamos?”, questionou no Twitter Eric Perry, primo de Errol Lindsey, a 11ª vítima de Dahmer. Embora qualquer pessoa sã sinta repulsa com as cenas, a escalação do bonitão Peters confere inevitável aura pop ao personagem.

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Ted Bundy: Um Estranho ao Meu Lado

Lançado em 2019, Ted Bundy: a Irresistível Face do Mal teve a mesma sina. Protagonizado por Zac Efron, o filme conta a história do americano que matou mais de trinta mulheres nos anos 1970. Pouco após a estreia, o TikTok foi inundado com vídeos de adolescentes fingindo ser Bundy. A propósito: o diretor Quentin Tarantino  ensinou como driblar o risco de glamorizar um assassino famoso no filme Era Uma Vez… Em Hollywood (2019): ainda que a seita do notório Charles Manson esteja no centro da trama, ele aparece só de relance, para não ganhar (tanto) cartaz.

LETAL - Redmayne em O Enfermeiro da Noite: o psicopata pode ter matado 400 -
LETAL - Redmayne em O Enfermeiro da Noite: o psicopata pode ter matado 400 – (JoJo Whilden/Netflix)

O enfermeiro da noite

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Anos antes, porém, o thriller Natural Born Killers, com roteiro do próprio Tarantino e direção de Oliver Stone, foi ligado a uma série de “assassinos copiadores”, que se inspiraram no filme — incluindo os atiradores de Columbine. Chamado de “efeito copycat”, o fenômeno descreve a influência da exibição massiva de crimes sobre outros matadores em potencial. A anatomia de um monstro como Jeffrey Dahmer rende audiência — mas deve, antes de tudo, ser vista como um alerta.

Publicado em VEJA de 5 de outubro de 2022, edição nº 2809

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Meu Amigo Dahmer
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Ted Bundy: Um Estranho ao Meu Lado
Ted Bundy: Um Estranho ao Meu Lado
O enfermeiro da noite
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