Quiabo holográfico
Compartilhe essa matéria: Link copiado! Priorize VEJA no Google Sempre que podia matava o banho, e não porque gostasse, como tantas crianças, de ficar sujo. É que a proximidade de xampus e desodorantes fazia disparar seu coração. Era sempre no banho que ocorria o fenômeno, não todo dia nem toda semana, mas às vezes. Ele […]
Sempre que podia matava o banho, e não porque gostasse, como tantas crianças, de ficar sujo. É que a proximidade de xampus e desodorantes fazia disparar seu coração. Era sempre no banho que ocorria o fenômeno, não todo dia nem toda semana, mas às vezes. Ele não saberia dizer a frequência exata, mas eram vezes suficientes para salpicar sua vida inteira daquele medo.
O que o aterrorizava vinha quando vinha, quando queria vir, o tsunami cognitivo, mas claro que essa imagem só lhe ocorreria muitos anos mais tarde: aquela vaga de fúria japonesa que o arrastava sem apelação. Imóvel diante do espelho, trêmulo, mas levado de arrasto, rolando destrambelhado em pirambeiras interiores até se rasgar inteiro nas pedras, ele tinha certeza de que a um palmo e meio em qualquer direção que o nariz apontasse ficava o nada, o nada. Logo, nada, nada tinha como jamais fazer sentido.
E esticava os dedos, que pareciam inflados, ao encontro das coisas, gilete do pai, perfume da mãe, cada uma com sua marca comercial igualmente desprovida de nexo, toalha úmida. Tentava chamar-se de volta, dizia seu nome, uma advertência breve, “para com isso, seu bobo”, mas era pior: ouvir a própria voz devolvida pelas paredes de azulejo azul dilatava a distância que o separava da lâmpada de sessenta watts, do espelho com moldura de alumínio. Um som mais grave e remoto do que sabia ser o de sua voz voltava flutuando lentamente, oco feito um ovo de Páscoa barato.
Ou então era a voz de sua mãe que vinha da cozinha para anunciar “janta em meia hora!”, e ele se via tiritando de medo. Não dela: por ela. Sua mãe saberia? Saberia que tinha em casa um monstro? Era igualzinho àquele pesadelo recorrente, sim, ele nunca esquecia: o zumbido alto e o estouro da manada de mamutes gigantescos no campo forrado de florezinhas do tamanho de cabeças de alfinete. Não, não era bem isso. Era o silêncio de um universo infinito de elaborados cristais de gelo, perfeito em seu existir gratuito de milhões de milênios, e era o micropedregulho que de repente, tlim!, o vaporiza. Era?
Ele sabia que, se desse um passo na direção errada, faria algo irremediável e já não poderia voltar. E de repente tinham se passado décadas e ali estava outra vez: o tsunami cognitivo. Em sua mão inflada, o tubo de desodorante era um quiabo holográfico. Esticou os dedos da outra mão, tocou o perfume preferido de sua mulher, o hipoglós de seu filho, por último sua tesoura grande de aparar a barba. Ouviu batidas na porta. “Você está demorando.”







