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Sobre Palavras

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Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

‘Possui alguma dúvida? Fale conosco’

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Por Sérgio Rodrigues 31 ago 2014, 10h00 • Atualizado em 31 jul 2020, 03h10
  • Encontrei a frase do título acima no pé de uma página que anuncia um curso extracurricular da PUC do Rio de Janeiro. A redação até então era correta, o que me fez ser apanhado desprevenido pelo uso torto do verbo possuir. Como assim, “possui alguma dúvida”? Se eu possuir uma, será que eles possuirão a resposta? Possui cabimento uma coisa dessas?

    Não é a primeira vez que encontro “possuir”, um derivado do latim possidere e parente do substantivo “posse”, empregado por aí como sinônimo indiscriminado de “ter”. Pelo contrário: tudo indica que cada vez mais falantes brasileiros possuem a certeza de que é chique trocar “ter” por “possuir” em qualquer contexto. Por alguma razão, dessa vez foi mais difícil de engolir. Talvez seja só a velha história da gota d’água.

    “Possuir” é sinônimo de “ter”, mas um sinônimo muito mais solene e grave, em cujo miolo está a ideia de poder. Possuir é tomar ou ter a posse de algo. Aplica-se sobretudo a bens, propriedades, coisas: possui-se um apartamento, um carro, um diploma. Consagrou-se há séculos a acepção machista em que o objeto da ação, direto e sexual, é uma mulher: “Possuiu Ermengarda ali mesmo, sobre um monte de feno”. Não muito distante fica aquela outra acepção, religiosa, em que um espírito toma conta de um corpo, fenômeno chamado possessão, a mesma ideia de domínio presente num uso como “Possuído de uma fúria santa, ele atacou”.

    Também é comum encontrar o verbo “possuir” aplicado a substantivos abstratos – “Ele possui uma inteligência rara” –, mas apenas quando o atributo em questão é marcante a ponto de definir a personalidade de alguém ou a essência de algo. Por fim, há casos em que “possuir” faz o papel de “conter”, como em “Este produto possui substâncias tóxicas”.

    Não há regras rígidas, mas o bom senso é recomendável. Quando o objeto da ação é algo fortuito, trivial, acessório, “possuir” não traz elegância alguma para o enunciado. Traz, sim, um peso descabido, bacharelesco e ridículo. A não ser em casos patológicos, ninguém possui uma dúvida, ninguém possui uma dor de cabeça ou um resfriado, ninguém possui pressa, ninguém possui a idade que tem. E possuo dito.

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