Por quê?
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– Por que será que, quanto mais o cara fala em conteúdo, menos tem?
De manhã bem cedo, sentado no banco de concreto à beira-mar, o homem de terno escuro olhava para a tela de seu celular. Tomando uma água de coco num banco vizinho após caminhar por quarenta e cinco minutos, dia prometendo ser quente mesmo no início de setembro, eu era a pessoa mais próxima dele. Havia pouca gente no calçadão àquela hora. Achei que falasse comigo.
– Como disse?
O sujeito não ouviu ou fingiu não ter ouvido minha pergunta. Embora eu não estivesse interessado em bater papo, isso sempre fere um pouco. Ninguém gosta de ser esnobado. Revidei olhando para o horizonte e pensando que tinha esbarrado num maluco, uma dessas criaturas deslocadas não apenas no tempo, com seu traje da noite passada, mas no esquadro da vida mesmo. A cidade está cheia de gente assim. Quem fala sozinho é maluco, certo?
Como fosse um tanto monótono o espetáculo do mar a se fundir ao longe com o céu, nenhuma nuvem ou gaivota, voltei a observar discretamente o homem no banco ao lado. Tinha olheiras fundas. Deslizava o dedo pela tela, balançava a cabeça, ria, se indignava. Imaginei que lesse notícias.
– Por que será que o sujeito se comporta como um verme, mas se sente virtuosíssimo só porque está cercado de vermes tão verminosos quanto ele?
Dessa vez, preparado, eu nada disse. Erguendo-me do banco, dei-lhe as costas e me afastei. Ainda o ouvi dizer, cada vez mais distante:
– Por que será que a Constituição diz que parlamentares condenados devem ser cassados, mas transfere a decisão para seus pares? Que decisão? Por que será que quem gosta de encerrar discussão internética com “é isso e ponto final” nunca usa pontuação? Por que será que ninguém nunca se interessa pelo que a gente tem a dizer, mas quando falamos sozinhos sempre chamamos atenção?
As últimas palavras me chegaram baixinho, quase inaudíveis, afogadas no murmúrio das ondas.







