O zagueiro e a guerra
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Que o melhor jogador brasileiro na Copa do Mundo até o momento é o zagueiro Lúcio, vai aqui como uma premissa daquelas bem cristalinas.
Isso não quer dizer que a frase acima dispense discussão. Nunca dispensa. Significa apenas que, não sendo esta uma coluna dedicada primordialmente ao comentário esportivo, mas aos prazeres da língua, o que vem ao caso não é o nome próprio Lúcio, mas o substantivo comum zagueiro.
E o melhor é que, como ocorre com frequência, os dois lados da questão acabam se encontrando.
A palavra zagueiro é uma exceção: não tem nem sombra do sotaque inglês que domina a maior parte do vocabulário do futebol brasileiro, fruto de vários processos de aportuguesamento ou adaptação realizados à medida que o jogo importado da Inglaterra ia se aclimatando por aqui, nas primeiras décadas do século 20. Em vez de provir do idioma de origem do football – como seu sinônimo beque (de back, a parte de trás), que já foi muito popular e hoje está em declínio – o zagueiro nasceu no espanhol.
O dicionário da Real Academia Espanhola informa que zaga, do árabe sáqa (retaguarda), queria dizer inicialmente duas coisas: carga que se acomoda na parte traseira de um veículo e, no jargão militar, o último pelotão de uma tropa em marcha.
É à acepção militar que a linguagem esportiva recorreu para batizar a zaga e o zagueiro, claro. Não à toa, alguém já afirmou que “o futebol é a guerra por outros meios”. E o futebol atual de Lúcio, com sua mistura improvável de aplicação disciplinada e abandono ao fogo da batalha, é a confirmação disso.
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A coluna Sobre Palavras será renovada quatro vezes por semana, sempre às terças, quintas, sábados e domingos. Quinta-feira é dia de consultório: convido os leitores a enviar suas dúvidas para o email sobrepalavras@todoprosa.com.br.







