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Ivan e o Bananão

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Por Sérgio Rodrigues 10 jun 2012, 14h15 | Atualizado em 31 jul 2020, 08h39
Ivan e o Bananão Priorizar nos meus resultados Google

O cronista Ivan Lessa, que morreu em Londres na sexta-feira, aos 77 anos, só chamava de Bananão o Brasil, país do qual se autoexilou em Londres em 1978 e ao qual voltou uma única vez, a trabalho, a convite da revista “piauí”, em 2006.

Por que Bananão? A referência mais óbvia é a uma imensa “república das bananas”, nome pejorativo de um daqueles paisecos da América Central que, durante grande parte do século 20, tiveram economias dependentes da monocultura bananosa e políticos manipulados com cordinhas pela multinacional americana United Fruits. Mas essa pode ser só a casca, que no caso da banana, como se sabe, provoca tombos de filme mudo. O que mais haveria nesse Bananão de Carmen Miranda?

Lá no centro da fruta-ícone nacional, bem no miolo do miolo, vamos encontrar o que Ivan chamava de “mistério brasileiro”, matéria dolorosa e enigmática feita de grandeza pisada, astros ilusórios que na verdade são luzinhas projetadas pela lua que fura o zinco. Antes disso, porém, há outras camadas que não convém negligenciar. Como o sentido ofensivo da gíria banana – de pessoa fraca, molenga, pusilânime, sem iniciativa – e ainda o do gesto insultuoso com o braço dobrado que o próprio Ivan, com o despeito dos amantes desprezados, fez ao pegar aquele avião para Heathrow e ir morar para sempre num Rio de Janeiro puramente imaginário, lembrado ou recriado, uma cidade que àquela altura já não existia e talvez nunca tivesse existido.

Havia carinho também no apelido, com certeza, mas o Brasilzão deu o troco dirigindo-lhe outra banana e passando perto de esquecer por completo seu cronista mais idiossincrático, estilisticamente brilhante e ferozmente engraçado. Politicamente incorreto? Isso vai sem dizer. Uma das burrices nacionais que levaram Ivan a virar um londrino de bengala e sobretudo foi a nossa mania, cada vez mais saidinha, de achar que a inteligência – inseparável do senso de indignação moral, embora isso muita gente não entenda – pode se subordinar a conveniências políticas sem virar burrice.

E assim, embora Ivan Lessa nunca tenha trabalhado no ramo das explicações, muito pelo contrário, o Brasil vai se tornando cada vez mais difícil de entender. Fica a saudade, também aumentativa, que ele cultivou como ninguém.

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