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Como o torpedo saiu do oceano para explodir no celular

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Por Sérgio Rodrigues 27 mar 2012, 14h40 | Atualizado em 31 jul 2020, 09h14
Como o torpedo saiu do oceano para explodir no celular Priorizar nos meus resultados Google

A palavra torpedo tem grande atualidade como sinônimo informal de mensagem de texto, em geral no formato SMS (Short Message Service). Tem também uma história antiga e fascinante que é um tributo ao poder da metáfora como criadora de sentidos inteiramente novos a partir de velhas ideias.

Vamos pela ordem. Em sua primeira encarnação, torpedo era uma palavra do latim clássico que queria dizer “torpor, entorpecimento” – vocábulos que, como se vê, conservam bem à mostra seu radical. Foi no próprio latim que se deu a primeira expansão no sentido da palavra: por causa da sensação de dormência provocada em quem era atingido por sua descarga, torpedo passou a nomear genericamente as raias-elétricas (como a da foto), ainda hoje chamadas cientificamente de torpedinídeos. Até aí a lógica da expansão era a da metonímia, a de se tomar uma parte – o efeito provocado por seu ataque – para nomear o todo, isto é, o dito animal. Mas daquele ponto em diante todas as demais evoluções semânticas de torpedo seriam metafóricas.

A segunda expansão teve que esperar muitas centenas de anos. Foi no início do século 18 que o inventor americano Robert Fulton imaginou uma nova e traiçoeira arma de guerra naval: explosivos armazenados numa estrutura flutuante, detonados pelo contato com o casco das embarcações inimigas. Por ver na geringonça semelhança visual e talvez até funcional com uma raia elétrica – que desde o século 16, por influência do latim, era chamada em inglês de torpedo – foi este o nome com que Fulton batizou a novidade. Pegou.

Pegou tanto que o aprimoramento feito pelo engenheiro britânico Robert Whitehead, criador do torpedo moderno, foi chamado inicialmente de self-propelled torpedo – em português, “torpedo automóvel”, nome hoje em desuso – para se diferenciar de seu tosco precursor. Hoje, os sofisticados torpedos de última geração já não precisam de adjetivos: cilíndricos, ainda lembram os de Whitehead, mas nada têm a ver com os de Fulton, que se enquadram melhor na categoria das minas.

Ou melhor, têm algo a ver com eles, sim: os torpedos mudaram de formato, mas mantiveram o nome. A expansão metafórica seguinte, ocorrida no português brasileiro informal em algum momento do século 20, deu à palavra o sentido de “bilhete enviado a uma pessoa determinada, em recinto público”, segundo o Aurélio – e o Houaiss acrescenta oportunamente: “geralmente com intenções amorosas”. É evidente o humor da analogia, possivelmente relacionado ao jogo conhecido como batalha naval: o torpedo seguia silencioso, abaixo da superfície das conversas, e ia explodir lá na frente – ou não, caso em que o torpedeador talvez murmurasse entre dentes: “Água!”. O desenvolvimento que deu no sentido atual de mensagem eletrônica de texto brotou diretamente daí.

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