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Sobre Palavras

Por Sérgio Rodrigues Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.
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Como dividir as sílabas da palavra ‘parapsicologia’?

Caro Sérgio Rodrigues! Frequentemente leio as publicações do blog Sobre Palavras. Quero parabenizá-lo pelo excelente trabalho em favor de nossa língua, nossa cultura. Quero também enviar uma questão. Há pouco tempo ouvi o professor Pasquale Cipro Neto, em um boletim seu na Rádio Globo no dia 24 de dezembro último, explicar como deve ser feita […]

Por Sérgio Rodrigues
Atualizado em 31 jul 2020, 04h36 - Publicado em 23 jan 2014, 11h51

parapsicologia

Caro Sérgio Rodrigues! Frequentemente leio as publicações do blog Sobre Palavras. Quero parabenizá-lo pelo excelente trabalho em favor de nossa língua, nossa cultura. Quero também enviar uma questão. Há pouco tempo ouvi o professor Pasquale Cipro Neto, em um boletim seu na Rádio Globo no dia 24 de dezembro último, explicar como deve ser feita a separação de sílabas das palavras parapsicologia e psicologia. Segundo ele, a separação correta é: pa-ra-psi… Ou seja, o ‘-psi’ é uma sílaba.

Dia desses, lendo a revista ‘Língua Portuguesa’, nº 97, de novembro de 2013, encontrei uma explicação diversa. Eis o texto:

‘Todos os minidicionários (do Houaiss, do Aurélio, de Evanildo Bechara) cometem o mesmo erro na segmentação da palavra ‘parapsicologia’. Esses dicionários separam assim as sílabas: pa-ra-psi… Ora, não existe hífen em ‘parapsicologia’. Portanto, a separação silábica tem de ser a seguinte: pa-rap-si… (cf.: si-lep-se; lap-so; co-lap-so; rap-só-dia, etc., em que as consoantes ps aparecem em sílabas distintas).’

A minha questão é esta: os dicionários estão, de fato, equivocados? Qual a forma correta de separar palavras assim? Muito obrigado pelo espaço e sucesso contínuo!” (Silas Camilo Cardozo)

A consulta de Silas prova que o tema da divisão silábica, ainda que ensinado nas escolas às crianças, pode ser cabeludo até para gente grande. Como se sabe, decompor os vocábulos em sílabas está longe de ser um exercício teórico, como se constata toda vez que o espaço da página termina antes da palavra, obrigando quem escreve a indicar com hífen aquele salto chamado translineação. (Eis mais um campo em que o computador tornou a vida bem mais fácil, não por fazer a divisão por nós, mas por evitá-la.)

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Ocorre que a divisão silábica, embora tenha regras bem estabelecidas, deixa alguma margem para dúvidas como a que aflige Silas. Há regras particulares, mas a geral, conforme enunciada por Celso Pedro Luft, é a seguinte: “Esses cortes se fazem não com base na análise morfológica (bis-avô, des-un-ir), e sim na pronúncia (bi-sa-vô, de-su-nir); é uma divisão fônica, e não mórfica”.

Isso significa dizer que a pronúncia é a regente. Ora, como a oralidade sempre comporta variações, a divisão silábica – sobretudo no caso de hiatos pronunciados como ditongos e vice-versa – também pode flutuar. Em geral admitem-se como corretas duas formas de separação em casos como o da palavra piedade: tanto pi-e-da-de quanto pie-da-de.

No caso em questão, o linguista José Augusto Carvalho, autor do citado artigo na revista ‘Língua Portuguesa’, aplica a “parapsicologia” a mesma lógica de rap-só-dia, clep-si-dra etc. Seu raciocínio é tecnicamente irrepreensível: como vimos, o princípio da divisão silábica não é morfológico (caso em que o prefixo para- teria que aparecer isolado), e uma vez que a palavra não tem hífen…

Se faz sentido, por que será que o resultado – pa-rap… – é tão contrário ao bom-senso, a ponto de não ser admitido em nenhum dos dicionários citados no mesmo artigo? Estarão todos simplesmente equivocados? Não creio. Acredito que eles prefiram dar à palavra um tratamento anômalo com base em outra lógica, que me arrisco a decompor em dois elementos.

O primeiro elemento não é propriamente morfológico, mas deriva dele: como “psicologia” é uma palavra muito mais empregada, muito mais corrente, em “parapsicologia” a noção de composição se mantém nítida demais. Ou seja, não existe hífen, mas é como se existisse. Mutilar “psicologia” na divisão silábica seria pagar muito caro por tal ausência. Aí entra o segundo elemento: para grande parte dos falantes, isso se reflete mesmo na pronúncia, que se recusa a dar a parapsi… o mesmo fôlego único de colapso, por exemplo.

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Eu diria que as duas interpretações – uma mais técnica, a outra mais sensata – estão corretas. Por mais que alguns leitores esperneiem, cobrando do colunista um retrato nítido em branco e preto, ambiguidades desse tipo são comuns em assuntos de língua. Isso não quer dizer que eu fique em cima do muro. Estou com os dicionários: no dia em que me virem quebrando “parapsicologia” em “parap-sicologia”, podem chamar o psicólogo.

Em tempo, a divisão silábica integral da palavra é, conforme a preferência do leitor após o que foi exposto acima, pa-ra-psi-co-lo-gi-a ou pa-rap-si-co-lo-gi-a.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Às segundas e quintas-feiras o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

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