Como a língua constrói seu pensamento
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Leio na revista do “New York Times” um ótimo artigo do linguista Guy Deutscher, que já no título dá um jeito de resumir da forma mais simples possível a questão enrolada que trata de investigar: “A linguagem molda sua forma de pensar?” A resposta que Deutscher aponta, sem a pretensão de esgotar um tema em que linguistas e psicólogos evolucionários ainda terão que ralar à beça, é instigante. Tudo indica que sim, o idioma materno molda em alguma medida nossos pensamentos. Mas não por nos impedir de pensar alguma coisa e sim por nos induzir a pensar outra. Convém explicar.
O artigo começa descrevendo o furor provocado nos meios intelectuais dos anos 1940 por um engenheiro químico chamado Benjamin Lee Whorf, que lançou a ideia de que as línguas estruturam nosso pensamento a tal ponto que os índios americanos, por exemplo, seriam simplesmente incapazes de compreender conceitos como o fluxo do tempo, por lhe faltarem palavras para tanto. Essa teoria chegou a gozar de grande prestígio popular – e pode ser considerada a responsável remota por um modismo recente como o da Programação Neurolinguística –, antes de ser desmascarada como simplória.
Não, nenhuma língua nos impede de pensar coisa alguma. Para ficar no exemplo citado por Deutscher, Schadenfreude é uma palavra que só existe em alemão (ou em idiomas que foram buscá-la no alemão), mas isso não dificulta em nada para um falante de chinês ou turco a compreensão da ideia de que se pode sentir prazer com a desgraça alheia. No âmbito do português, costumamos nos orgulhar de sermos os únicos donos da palavra saudade (que o espanhol importou com a mesma grafia), mas seria absurdo supor que a falta de um termo perfeitamente equivalente impeça o falante de qualquer língua de sofrer com a ausência do que ama.
A tese de que a influência das línguas é positiva e não negativa, ou seja, se dá pelos pensamentos que elas induzem e não pelos que vetam, ainda é pouco mais que uma hipótese promissora. No entanto, segundo o artigo, vem resistindo bem ao teste das pesquisas sobre gêneros diferentes que substantivos comuns assumem em dois ou mais idiomas. Quando lhes pedem que atribuam voz a um garfo, franceses optam por um tom agudo (la fourchette) enquanto espanhóis preferem um timbre grave (el tenedor). O que ainda é pouco, quase nada, mas abre caminhos. Como especula Deutcher: “Será que os gêneros opostos de ‘ponte’ em alemão e espanhol, por exemplo, tiveram alguma influência nos projetos de pontes na Espanha e na Alemanha?”





