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Sobre Palavras

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Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Chamar liquidação de ‘sale’ é coisa de bocó

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Por Sérgio Rodrigues
9 fev 2012, 13h17 • Atualizado em 31 jul 2020, 09h33
  • Prezado Sérgio, vejo a palavra SALE nas vitrines das lojas e me pergunto: não seria melhor usar LIQUIDAÇÃO? Me parece uma tentativa desnecessária de sofisticação. Qual sua opinião? (François Coblentz)

    Na minha opinião, François, isso é basicamente coisa de gente bocó. Talvez se pudesse chamar também de bovarismo, aquela condição – nomeada em homenagem à personagem Madame Bovary, do escritor francês Gustave Flaubert – de quem imagina para si circunstâncias de vida que não possui e passa a agir como se as possuísse.

    Se digo que nossa anglofilia cotidiana – presente ainda no adolescente chamado de teen, no intervalo chamado de coffee-break e em mil situações do dia a dia – denota basicamente uma condição meio abestalhada é porque a questão, claro, é mais complexa do que isso. O lojista que opta por chamar sua liquidação de sale pode se defender alegando que assim exercita qualidades apreciáveis como esperteza comercial ou realismo psicológico: ao criar uma aura primeiro-mundista (leia-se americana) em torno de sua loja, a palavra importada estaria apenas cumprindo o papel de ajudar nas vendas. Bocó ele seria se não explorasse isso, certo?

    O mesmo pode ser dito pela construtora ao batizar seu empreendimento imobiliário (ramo em que o francês e o italiano também têm seus encantos), pelo consultor corporativo ao escolher as palavras-chave que motivarão sua equipe etc. O que se busca nesses casos é uma sobra de sentido, um arco-íris de conotações que nenhuma palavra do vernáculo, justamente por soar trivial, pode conjurar.

    Digamos que o argumento é sólido. Ainda assim, é profundamente bocó o contexto em que o inglês vira um idioma fetichista e sale, uma palavra mágica, capaz de transportar clientes simbolicamente para Miami ou Nova York, onde (eis a mensagem subterrânea de tal modismo) se vive uma vida plena, com palavras e coisas se casando à perfeição, e não este eterno ensaio que temos aqui.

    Como problema propriamente linguístico, a praga do sale é desprezível: acreditar que a língua portuguesa esteja ameaçada por essa bobagem é cometer o erro – mais bocó ainda – daqueles políticos populistas que de vez em quando tentam emplacar leis para proibir o uso de palavras estrangeiras. Estrangeirismos funcionais são bem-vindos em qualquer língua. A fetichização do inglês não passa de um sintoma de fragilidade cultural e baixa auto-estima nacional, problemas que tendem a ser resolvidos pelo próprio desenvolvimento – econômico e sobretudo educacional – do país.

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