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Sobre Palavras

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Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

A pane, a pena e o pano

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Por Sérgio Rodrigues 23 out 2012, 11h52 • Atualizado em 31 jul 2020, 07h34
  • embarca%c3%a7%c3%a3oPane quer dizer, segundo o Houaiss, “falha no funcionamento do motor de automóvel, avião etc., que geralmente provoca uma parada”. Sem esquecer, claro, seu uso figurado informal como “esquecimento momentâneo; branco, claro”. A definição do dicionário deixa de fora outra acepção de largo emprego: travamento de um sistema em que as engrenagens e correias de transmissão sejam metafóricas e não literais, como no caso das panes que volta e meia acometem o tráfego aéreo brasileiro.

    A origem da palavra, porém, não tem nada a ver com motor. Pane é um substantivo feminino que o português começou a usar no século 20, segundo o etimologista Antonio Geraldo da Cunha, depois de importá-lo de uma expressão francesa do vocabulário náutico. Panne era a princípio o nome da verga (peça transversal) mais longa do mastro de um navio, da qual pendia a vela e que se afinava nas extremidades como uma pena. É justamente do latim pinna, “pluma”, que deriva a palavra, de acordo com o Trésor de la Langue Française.

    Até aí, uma coisa não parece ter nada a ver com a outra. O sentido de parada surgiu em francês na virada entre dos século 16 e 17, inicialmente na forma da expressão mettre en panne, “por em pane”, que significava dispor essa verga – e, com ela, as velas – de tal forma que o movimento da embarcação cessasse.

    Depois disso, em contraste com tal sentido estático, a palavra não se deteve mais em sua expansão. Há registro da expressão en panne usada em 1759 com o sentido militar de “impossibilitado de agir, de mãos atadas”. Em 1879, qualquer “interrupção no funcionamento de um mecanismo” podia ser nomeada assim. E em 1903 panne designava a “parada acidental de um veículo automobilístico ou uma bicicleta”. Foi com essa roupagem que a importamos.

    Uma curiosidade adicional é o contraste entre a expressão náutica francesa e a nossa “a todo pano”, que tem o sentido literal oposto de “com as velas enfunadas”, isto é, “a toda velocidade”. Esse desencontro se dá porque, embora as duas palavras soem parecidas e estejam no mesmo campo semântico de velas e mastros, não têm nenhum parentesco etimológico. Se a panne francesa é filha de um termo latino que quer dizer pena, nosso pano derivou de pannus e é, nesse caso, um simples sinônimo de vela.

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