‘Mondegreen’: tocando B.B. King sem parar
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A morte de B.B. King, lenda do blues, ontem, aos 89 anos, fez de um curioso vocábulo da língua inglesa a Palavra da Semana: mondegreen. Hein?
Não, nem sei se o guitarrista nascido em 1925 no interior do Mississippi conhecia a palavra. Mas por uma dessas trapaças da sorte seu nome ficou ligado a ela, ou ao que ela nomeia, como o mais clássico exemplo de mondegreen da cultura brasileira, como entenderá quem chegar ao fim do artiguete abaixo, que publiquei neste blog em abril de 2011:
Um fenômeno linguístico definitivamente menor, mas nem por isso menos divertido, é aquilo que, num artigo de 1954 para a revista “Harper’s”, a escritora americana Sylvia Wright batizou com um neologismo que pegou: mondegreen.
Já dicionarizada em inglês, a palavra tem uma tradução brasileira ainda informal que capta bem o espírito da coisa: “virundum” (de “O virundum piranga as margens plásticas” – ou coisa parecida).
Um mondegreen ou virundum é, para resumir, um mal-entendido provocado por semelhança sonora, geralmente num poema ou canção. Wright tirou o nome de uma confusão que a vitimava na infância ao ouvir sua mãe lhe recitar uma balada popular do século XVII chamada “The Bonny Earl O’Moray”. Quando o poema dizia laid him on the green (deitou-o na grama), ela entendia “Lady Mondegreen” – uma confusão intraduzível. Basta entender que os perfis sonoros são quase idênticos.
No tal artigo, Sylvia Wright defendia uma tese provocante: a de que os mondegreens, mesmo errados, são sempre esteticamente superiores ao original e por isso se impõem ao ouvinte. O que é provavelmente um exagero. Quando tomei conhecimento da palavra, veio-me à cabeça uma história do folclore familiar segundo a qual, aos cinco ou seis anos de idade, perguntei a meus pais o que significava “cubrado”. Como eles não soubessem do que se tratava, comecei a cantar o Hino Nacional (ele de novo, fonte inesgotável de mondegreens): “…de um povo herói cubrado retumbante”.
Resisto à tentação de lançar aqui a candidatura de “cubrado”. Virundum é mais sonoro e chegou primeiro. Se não é esteticamente “superior”, o mondegreen/virundum é sem dúvida engraçado, principalmente quando, saindo da esfera do erro particular e intransferível, afeta multidões de ouvintes. Multidões como as que, dizem, ouvem Claudio Zoli cantar aquele seu velho sucesso, “Noite do prazer”, de forma ligeiramente diferente da que ele pretendia ao escrever “tocando B.B. King sem parar”:
Na madrugada, a vitrola rolando um blues/ trocando de biquíni sem parar…
Neste caso eu dou razão a Sylvia Wright: o mondegreen é melhor.







