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Ricardo Rangel

Faltam estadistas

Os interessados na preservação da democracia não se mobilizam

Por Ricardo Rangel Atualizado em 1 abr 2022, 12h39 - Publicado em 1 abr 2022, 06h00

Há 58 anos, um golpe militar instaurou no Brasil uma ditadura que durou 21 anos e censurou, perseguiu, prendeu, exilou, torturou, matou. O obscurantismo e a estupidez provocaram enorme sofrimento e criaram um apagão na cultura, hiperinflação, arrocho salarial, concentração de renda.

Nem o período mais nefasto de nossa história produziu, no entanto, um presidente com personalidade mais autoritária do que Jair Bolsonaro, e dá arrepios imaginar o que ele faria se tivesse o poder de um Geisel. Isso não é impossível: os golpes de hoje não se dão com tanques, mas pelo desmonte das instituições, processo em que Bolsonaro vem sendo bem-sucedido. Se ganhar mais um mandato, pode destruir a democracia por completo.

É grave que os maiores interessados na preservação da democracia não se mobilizem. Metade do Congresso Nacional, incluindo boa parte da oposição, segue Artur Lira e Ciro Nogueira e se vende a Bolsonaro pelos bilhões do orçamento secreto. Parafraseando Churchill, alimentam o crocodilo na esperança de serem devorados por último.

Ainda mais grave é que os progressistas não consigam se organizar para enterrar Bolsonaro em outubro. Alckmin, sabotado por João Doria, migrou para o PSB para ser vice de Lula. A adesão, eleitoreira, não inclui agenda programática, e Alckmin fica calado enquanto Lula ataca bandeiras históricas do PSDB. A adesão serve apenas para que Lula finja que acena ao centro.

Eduardo Leite concorreu nas prévias do PSDB e perdeu. Quis ganhar no tapetão e perdeu. Decidiu abandonar o partido para ser candidato, desistiu ao perceber que não teria chance. Ainda quer jogar a final mesmo tendo sido derrotado na semifinal. Ciro Gomes tampouco cogita renunciar.

“Lula poderia negociar agenda comum com o centro, mas prefere defender propostas incendiárias”

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Sergio Moro aceitou ser ministro de um presidente que, como juiz, ajudou a eleger. Foi seu cúmplice por dezesseis meses e saiu atirando. Não tem preparo nem proposta e não convence como democrata, não uniu. Anunciou sua desistência não por desprendimento, mas porque se viu emparedado.

Doria já se desentendeu com Alckmin, Eduardo Leite, Tasso Jereissati, Bruno Araújo, José Aníbal etc.: não consegue unir seu próprio partido, muito menos a oposição. Em um gesto unilateral e inesperado, anunciou a desistência de concorrer à Presidência, jogando seu partido no caos. Depois, desistiu da desistência… e ninguém mais sabe onde isso vai dar.

Lula lutou pelo impeachment de todos os presidentes não petistas exceto Bolsonaro, que poupou por acreditar ser mais fácil de derrotar. Poderia negociar uma agenda comum com o centro e até vencer no primeiro turno, mas segue defendendo propostas incendiárias. Quer governar sozinho, como sempre fez.

O PT não mudou, por sinal. Em 1985, na eleição indireta entre Paulo Maluf, homem da ditadura e corrupto notório, e Tancredo Neves, democrata indiscutível e de caráter ilibado, o PT determinou o voto nulo e expulsou quem votou no democrata. Tancredo venceu, mas não exerceu a Presidência. Sabendo-se doente, atrasou a internação por medo de que os militares impedissem a redemocratização; acabou internado de emergência na véspera da posse e morreu semanas depois.

Estadistas, como Tancredo Neves, sacrificam os interesses pessoais, e até a vida, pelo país. Os políticos de hoje parecem dispostos a sacrificar o país por seus interesses pessoais (se arriscam a sacrificar os dois).

Publicado em VEJA de 6 de abril de 2022, edição nº 2783

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