UMA PRÁTICA ERRADA
Há certas coisas que precisam ser apontadas não exatamente para o bem desta ou daquela pessoa, mas da precisão. A Folha publica uma pequena entrevista com o deputado Índio da Costa (DEM-RJ), candidato a vice do tucano José Serra. Como se informa ali, foi feita por telefone três horas depois de ele ter sido indicado. […]
Há certas coisas que precisam ser apontadas não exatamente para o bem desta ou daquela pessoa, mas da precisão.
A Folha publica uma pequena entrevista com o deputado Índio da Costa (DEM-RJ), candidato a vice do tucano José Serra. Como se informa ali, foi feita por telefone três horas depois de ele ter sido indicado. Título dado pelo jornal: “‘Não tenho a menor idéia de nada’, afirma deputado”.
É uma manipulação. A frase foi pinçada da seguinte resposta:
O sr. acha que a campanha tem que ter uma linha mais crítica ao governo Lula?
Vou me assessorar com a equipe do Serra e com o próprio Serra, que tem uma quantidade enorme de pesquisas e informações que eu não tenho. Tenho uma experiência de funcionamento do serviço público, e isso é uma questão que serve para qualquer área, é gerencial. O que vou fazer é entender quais são os problemas e de que maneira eu posso contribuir. Mas é muito cedo para tudo, faz três horas que eu fui indicado, não tenho a menor idéia de nada.
Como se nota, a jornalista – e não há nada de errado na pergunta – quer uma avaliação crítica da campanha. E não cabe ao vice fazê-la.
Esse tipo de coisa não é jornalismo crítico ou acrítico, isento ou comprometido, apartidário ou partidário. É só uma prática errada. Se querem evidenciar improvisação, pressa ou até mesmo despreparo de Indio da Costa, que o façam com clareza. Mas, aí, é preciso ter evidências. Como não há, então se recorre a um pediente oblíquo.
Querem outro exemplo na mesma Folha? O senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que havia sido escolhido para vice, também concedeu uma entrevista ao jornal. Entre outras coisas, lê-se lá:
A candidatura de Osmar Dias ao governo do Paraná foi o fato mais importante?
Prefiro esquecer esse episódio, excluir o Paraná disso, por razoes óbvias. Irmão é irmão, e a gente não fala. Tenho que priorizar a questão nacional porque é dela que eu vou participar.
Pode até estar chateado e tal, mas a reação foi ponderada. E qual foi o título dado à sua entrevista? Este: “‘Não o conheço”, diz Dias, o preterido, sobre substituto”. Vamos ver a resposta inteira agora:
O que o sr. achou da escolha do deputado Indio da Costa?
Eu não posso falar dele porque só o conheço de vê-lo no Congresso. Eu não o conheço. Não conheço a trajetória dele. Se foi escolhido, é porque deve ter qualidades.
Como se vê, também nesse caso, embora menos escandaloso, o título vai muito além da fala. E uma pequena entrevista em tom conciliador ganha a leitura do ressentimento.
É preciso tomar cuidado para não acabar dando razão a certos políticos que consideram que o mais seguro, sempre!, é mesmo ficar longe da imprensa.
Ah, sim: eu pego no pé de um monte de gente e esculhambo muitos discursos. Mas me atenho ao que a pessoa diz, parágrafo por parágrafo às vezes, para não correr o risco de dar uma resposta muito genérica. As falas que viraram títulos nem são deslizes reveladores dos entrevistados. São distorção deliberadas pelo propósito de provar duas teses, emboras as falas não as justifiquem: Indio é despreparado, e Dias está bravo. Mas cadê a braveza e o despreparo? Ora, estão nos títulos!
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