Um texto do passado com antevisões do futuro
Eu tenho a grande sorte de ser amigo de Rubens Baptista Junior. É médico. Mas já cursou direito na São Francisco e jornalismo na ECA, ambas faculdades da USP. Rubens, acreditem, sempre sabe tudo. Não é que me arrumou, o que só ele consegue, o texto que escrevi quando Heloisa Helena, hoje presidenta do PSOL, […]
Pois bem, queridos. Escrevi um texto analítico, naquele mesmo dia, que assinaria ainda hoje, sem alterar uma linha, quatro anos e três meses depois.
O Termidor do PT
Revoluções engolem os seus, e, mais de uma vez, já usamos neste site esta mesma imagem apavorante que se vê ao lado, de Goya. É Saturno engolindo os próprios filhos, uma visão, sem dúvida, macabra. Quando mandou massacrar os marinheiros anarquistas de Kronstadt, Trotsky, o mais brilhante da geração que fez a Revolução Russa de 1917, comentou com Lênin: “É o nosso Termidor”. Aquele que viria a ser o “profeta traído da revolução”, no dizer do biógrafo Isaac Deutscher, experimentaria ele próprio a mão pesada da história que ajudou a escrever, assassinado que foi a mando de Stálin em 1940. Bem, voltemos: ao falar no “nosso Termidor”. Trotsky reconhece que os marinheiros estão à esquerda de um novo poder que não tem como se consolidar se eles não forem eliminados. Ou seja, o decreto de morte daqueles que antes foram úteis é condição para a sobrevivência do novo modelo.
A referência histórica é o golpe contra Robespierre — o jacobino que liderou a fase do Terror da Revolução Francesa —, desfechado no dia 27 de julho de 1794, ou 9 Termidor do ano 2, segundo o calendário novo que se tentou implementar. A esquerda tem dessas paixões inaugurais, como se sabe, tentada sempre a crer que a história é um processo que tem de ser passado a limpo. E dessa vocação não escapam estatísticas do IBGE ou o calendário. Vá lá, no caso de Robespierre, o que o levou a perder o pescoço foi a anunciada intenção de combater os que considerava traidores da revolução e corruptos. Ameaçou a Convenção com uma lista. Assinava, assim, a sua sentença de morte. Já havia eliminado os que estavam à sua direita e à sua esquerda. Foi derrubado por um golpe, preso e executado. Experimentou a guilhotina de que tanto fez uso para consolidar o seu poder.
Mas vamos com calma. Aqui já se adianta um pouco a história e se complicam os paralelos. Afinal, quem é o Robespierre de nossa farsa cabocla? É Heloísa Helena a reproduzir os últimos dias do líder radical ou será Lula a mimetizar as ações do líder no auge de sua potência? Nem uma coisa nem outra. A força do paralelo e sua virtude para o entendimento estão apenas em reconhecer que a consolidação de um poder, por mais mudanças que proponha, passa por fases de acomodação com os conservadores — o que foi verdade mesmo para a mãe de todas as revoluções, segundo os parâmetros de esquerda, que foi a Russa. A exceção a essa regra da acomodação talvez tenha sido o delírio de Pol Pot. Deu no que deu.
Assim, ainda que, numa hipótese remota, os quatro parlamentares petistas não sejam guilhotinados, a guinada foi feita, o retrocesso (segundo o ponto de vista do mudancismo petista, é claro) está decidido, e os antigos “revolucionários” (e ponham-se aspas aqui…) se oferecem para governar agora um PT bem mais conservador do que aquele que ganhou a eleição — com ou sem Carta ao Povo Brasileiro, este verdadeiro work in progress, que, a cada dia, autoriza uma mudança ou uma lambança nova. Lula, a Articulação, Zé Dirceu e o núcleo duro já botaram antes a “direita” do partido para fora; agora, silenciam um pedaço da esquerda. O flerte inclui, sem pudor, João Pedro Stedile e Abílio Dinis. Todos vão se unindo, felizes, em seus dons carismáticos, cada um na sua área, cada um na sua praia.
O Termidor da Revolução Francesa, assim como o da Russa (na expressão de Trotsky ao menos), se fez com muito sangue. O do PT se faz com tentativas (provavelmente bem-sucedidas) de banimentos e enquadramentos obsequiosos, que obrigam os discordantes ao silêncio. Enquanto isso, a idéia de uma pax lulista, que inclui tanto os mercados como os sem-terra, tanto os bancos como os sindicatos, vai sendo vendida como a solução.
Aí, sim, se nos permitem, cabe uma lembrança a título de advertência. Há uma boa possibilidade de que entremos em algo parecido com a era do Diretório, com, vamos dizer, banqueiros pressionando em favor da Restauração, e os sans-culottes a cobrar a prometida justiça. Aquela brincadeira terminou no golpe do 18 Brumário (novembro de 1798), o original, não a farsa relatada por Marx. Em 1804, a França revolucionária, aquela que ousara sonhar com a pátria dos iguais, tinha um imperador, Napoleão Bonaparte. Um sinal de que mesmo processos termidorianos podem fugir do controle. A sorte está lançada.





