Um texto de Christopher Hitchens e um soneto inédito de Nelson Ascher
O bom Christopher Hitchens, de quem costumo discordar radicalmente às vezes, escreveu um artigo na revista eletrônica Slate em que, vejam só, dá um puxão de orelha na imprensa e pede o fim desse clima de oba(ma)-oba(ma) que tomou conta do jornalismo. E começa lembrando que ele foi um entusiasta da candidatura do democrata, listando […]
Hitchens está pegando no pé do cãozinho “Press”, extasiada com o chamado evento histórico. E também parece um pouco assustado com o entusiasmo dos comentários que chegam à revista. E ele lembra, então, as dificuldades que Obama tem pela frente. A falta de dinheiro é uma delas. Muito realista, lembra que os inimigos dos americanos não desapareceram — e cita particularmente Rússia e Irã. Hitchens observa que os eleitores de Obama parecem acreditar que o mero encanto pessoal do eleito diminua os perigos representados pelos inimigos dos Estados Unidos e pelos estados delinqüentes. E, é óbvio, lembra que não é assim. Vão se desiludir os que imaginam ter votado “to legalize Utopia”.
Embora Hitchens tenha votado em Obama e eu tenha “votado” em McCain, não é coisa muito diferente o que se tem lido neste blog. Ambos achamos que a questão racial foi mal lida em todo esse processo. Ambos consideramos que a imprensa, mundo afora, faz uma cobertura ruim da eleição. Ambos apontamos esse “utopismo” bocó que embala a eleição de Obama — até já escrevi e falei em entrevista que tendo a me decepcionar menos do que um pacifista do miolo mole. Aponte-se um só texto em que faço antevisão da catástrofe. Mas concordo, por exemplo, inteiramente com Diogo Mainardi quando diz que McCain tiraria os soldados do Iraque com mais celeridade do que fará Obama. Por incrível que pareça, um republicano até poderia cometer alguns erros em questões de segurança. Um eventual tropeço custará mais caro a Obama. E ele será mais tímido na “mudança” do que seria o outro — e quem não perceber isso não terá percebido o essencial.
É por isso que Hitchens se mostra até irritado com a cobertura jornalística e com os comentários que a Slate anda recebendo. Pois bem. E Nelson Ascher com isso? O grande poeta e tradutor brasileiro — de várias línguas —, um dos textos mais argutos do país, fez um soneto que retrata justamente esse clima de “oba(ma)-oba(ma)”. Para lembrar o que já é um clichê (este fica por minha conta), mas muito caro à nossa literatura, foi escrito com “o teclado da galhofa” — e lamento que tanta gente tenha perdido o humor nestes tempos — e com os “bytes da melancolia”. Um soneto contra Obama? Não! Um soneto contra a “Babacobamania” e os “avos, evos, ovos e uivos” das utopias regressivas, que insistem em pegar carona no “evento histórico”, deixando pra lá a realidade. Ao poema de Ascher.
Ah, um soneto… aos tempos novos
Perdemos a Revolução dos Cravos,
a outra, de Outubro, além de embates prévios
e, ainda há pouco, apostando em Chávez, Evos,
ou Castros, não passávamos de escravos
das circunstâncias, sempre a ouvir ignavos
fascistas nos chamarem de medievos.
Daqui pra frente, tudo muda. — Leve-os
o diabo: eles nos devem desagravos.
Graças a deus, porém, chegamos vivos
à ansiada aurora destes tempos novos
de paz, amor e sóis que se erguem ruivos.
Proletários do mundo inteiro, uni-vos
em torno a Obama e, sem pisar em ovos,
vamos, agora, entronizá-lo aos uivos.





