Rua dos Bobos, Número Zero!
Vocês se lembram quando houve aquela pajelança com os prefeitos, em Brasília, com a possibilidade de eles tirarem uma falsa foto ao lado de Lula e Dilma? Pois é. No dia 11 de fevereiro, escrevi um texto chamado Uso da máquina, mentiras e videoteipe. A íntegra está aí no link. Destaco um trecho e depois […]
Vocês se lembram quando houve aquela pajelança com os prefeitos, em Brasília, com a possibilidade de eles tirarem uma falsa foto ao lado de Lula e Dilma? Pois é. No dia 11 de fevereiro, escrevi um texto chamado Uso da máquina, mentiras e videoteipe. A íntegra está aí no link. Destaco um trecho e depois retomo.
Que Lula já está em campanha, não resta a menor dúvida. (…) Montou-se um estande em frente ao Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Ali, prefeitos podem participar de uma fotomontagem e depois levar a mentira para seus munícipes, afetando intimidade com o presidente Lula e com a ministra Dilma Rousseff. É o que fez Raimundo Nonato Pessoa, prefeito de Timbiras, no Maranhão, a exemplo de milhares de outros. Aliás, o PAC — o Programa de Aceleração do Crescimento — é tão verdadeiro quanto essa foto. Também é uma montagem. E também engana os desavisados. Com Lula é assim: tudo termina em propaganda. E, quanto mais mentirosa ela for, mais profissional essa gente se sente.Os milagres vão se multiplicando. O PAC, que, reitero, não existe, teve mais do que dobrada a sua verba da noite para o dia. Sou contra botar aspas nas palavras para mudar o seu sentido. O fato é que Lula nos colocou diante de um problema também de linguagem. Como vamos nos referir objetivamente às desrealidades com as quais ele nos confronta? De pouco mais de R$ 500 bilhões, o PAC saltou para R$ 1,4 trilhão… Hoje foi o dia da multiplicação da habitação popular: na semana passada, anunciou-se a construção de 500 mil casas. Ah, é pouco. Por que não o dobro? E Lula mandou ver: “Eu quero um milhão de casas até 2010. Não gostei do que foi apresentado. Pedi para refazer alguns estudos, e ele pode ser reapresentado a mim até sexta-feira”. E adivinhem quem vai lançar o programa, que será apresentado, a exemplo do PAC, como obra já realizada? A mesma Dilma que hoje anunciou o programa de intenções (sic) aos prefeitos.VolteiPois é. Vai ver sou mesmo muito “pessimista e sombrio”. O tal programa foi lançado hoje. As informações estão em todos os sites. Ocuparão os jornais amanhã. O governo vai construir um milhão de casas. MAS NÃO HÁ MAIS PRAZO, NÃO. No discurso, Lula avisou: não quer ser cobrado em 2010. Ele não sabe quando vai atingir aquele número mágico.
A poucos ocorre o óbvio: quem promete um milhão de casas sem prazo de entrega está sendo modesto. Por que não dois milhões? Sem prazo, o céu é o limite. “Ah, mas há o aporte de dinheiro”. Eu sei. O investimento ESTIMADO — “estimado”, entenderam? — é de R$ 34 bilhões. Ué… Por que não prometer 10 milhões de moradias e estimar os investimentos em R$ 340 bilhões? Multiplicados por 10, Tudo e nada são a mesma coisa.
Pactóide
O PSDB recorreu a uma palavra criada por este escriba quando o PAC foi anunciado, bem lá atrás, para definir o tal “programa” habitacional: “pactóide”. Em nota, observa o partido: “É muito estranho que a focalização do programa abandone o principal problema que é a moradia de favela, cuja resolução é até mais barata, para proporcionar recursos a classes de renda maior, já atendidas pelo sistema de financiamento existente.”
A crítica, do ponto de vista técnico, é, sem dúvida, procedente. E há, obviamente, a questão política. O programa, já a partir do título, é mobilização eleitoral: “Minha Casa, Minha Vida”. Vai tentar produzir mais emoção do que tetos. Na campanha eleitoral do ano que vem, a exemplo, do Pacão, o pai de todos os pactóides, o que é promessa será dado como obra realizada.
Como bem disse Lula, o próximo presidente vai encontrar uma prateleira cheia de projetos. Não tenho a menor dúvida. E que se note: os R$ 34 bilhões já são dados como dinheiro certo, a exemplo daquele mais de R$ 1 trilhão do PAC, sabem? É inevitável citar Vinicius de Moraes:
Era uma casa muito engraçada,
não tinha teto, não tinha nada.
Ninguém podia entrar nela, não,
Porque, na casa, não tinha chão.
Ninguém podia dormir na rede
porque na casa não tinha parede.
Ninguém podia fazer xixi
porque pinico não tinha ali.
(…)
Mas era feita com muito esmero
na Rua dos Bobos, número zero





