OS NÚMEROS DO DATAFOLHA
Os petistas certamente se esforçarão para ver um avanço formidável na candidatura de Dilma Rousseff à Presidência com os números publicados hoje pelo Datafolha — ver abaixo. E o mote será este: em março, a diferença entre a ministra e o tucano José Serra era de 30 pontos. Agora, de 22. Ascensão fulminante? Não exatamente, […]
Os petistas certamente se esforçarão para ver um avanço formidável na candidatura de Dilma Rousseff à Presidência com os números publicados hoje pelo Datafolha — ver abaixo. E o mote será este: em março, a diferença entre a ministra e o tucano José Serra era de 30 pontos. Agora, de 22. Ascensão fulminante? Não exatamente, não é? Pode-se olhar a questão por um ângulo mais realista: mesmo com uma impressionante exposição naquilo que os petistas chamam “mídia”, a candidata ainda está com 16%.
Que se note: o Datafolha fez um corte interessante: entre os que sabem da doença de Dilma, quantos votam nela? 22% — acima de sua média nacional, que é de 16%. Vale dizer: o governo levou o câncer para o palanque, como é notório, e houve uma resposta eleitoral positiva. Mas que está um tanto longe daqueles outros 22% alardeados pela pesquisa do PT. Ela pode chegar a esse número com tranqüilidade? Claro que sim. Qualquer índice inferior a um terço do eleitorado será sempre pouco para um petista. É esse o peso do partido na sociedade. E um terço também vota contra o PT nem que ele escolha um anjo — impossível, né? — para representá-lo. O segredo sempre está em ganhar o outro terço.
Que Dilma esteja em ascensão, não resta dúvida. Não poderia ser diferente. Mas que é pesada, isso também é evidente. Outra (o) que tivesse, de fato, “mais coração” (para ficar na linguagem emocional abraçada pelo partido) e contasse com o apoio escancarado de Lula, que já está em campanha, talvez estivesse mais à frente. Mas isso importa pouco agora: o fato é que candidatura se move.
E nas oposições? Serra oscilou três pontos para baixo — e os aecistas poderiam ver nisso uma espécie de cumprimento da profecia. Mas Aécio também caiu três pontos. Nada disso quer dizer muita coisa se o PSDB acordar. Em tempo: a pré-candidatura do governador de Minas insiste em não decolar. Ele foi para o quarto lugar quando é apresentado como o candidato tucano.
E o futuro?
Bem, quase todo o PT e o Planalto estão mobilizados em defesa da candidatura Dilma Rousseff, que conta, por força do cargo — e da doença —, com ampla cobertura da tal “mídia”. Ela é ainda raquítica eleitoralmente, mas tem o apoio de Lula, o que faz uma brutal diferença. E Lula, como se sabe, não tem pudor e faz mesmo comício em obra pública. E as oposições? Bem, mais uma vez — e isso já aconteceu em 2005 —, aquele que desponta como franco favorito, Serra, não é tratado como tal no partido porque isso melindraria o outro pretendente… De certo modo, o que impressiona é o governador de São Paulo manter-se na faixa dos 40% ou quase (a depender do cenário): aparece pouco na “mídia” nacional e evita tocar no assunto “eleições” em aparições públicas.
A campanha já começou, como Lula e Dilma bem sabem, mas os tucanos são obrigados a cuidar das suas diferenças internas. Ainda que o resultado do Datafolha não indique uma ascensão espetacular de Dilma, o fato é que ele traduz a habilidade do governo em fazer propaganda eleitoral e a habilidade de seus adversários em dar tiro no pé. Lembram-se do “agora é Lula” de 2002? Pois é… Partido que tem um pré-candidato com os índices do governador de São Paulo deveria estar falando algo como “Agora é Serra”. Mas não vai dizer tão cedo.
Fiquemos atentos. Os trechos abaixo são de um artigo que escrevi no Globo no dia 3 de dezembro de 2005!!! Vejam como a história corre o risco de se repetir.
Enigmas do PSDB
O PSDB deve ser o único partido no mundo em que um candidato favorito não é favorecido pelo favoritismo — se me permitem a lambança tautológica. Para alguns, é como se a preferência do eleitorado fosse um prejuízo, um peso de que querem se proteger. Parece que os ouço: “Não, este não. Está na frente nas pesquisas. Não pode!”
É mais ou menos o que se verifica com o nome de José Serra — até agora o único a vencer Lula num eventual segundo turno. Pode mudar? Pode. Mas é assim enquanto escrevo. Satisfação nas hostes tucanas? Há os que se mostram inquietos. O argumento maroto é o de que pesquisas refletem a realidade do momento. Sei. Futuro certo é só com a Mãe Dinah. Também acho que favoritismo não é critério absoluto: depois de Lula, é recomendável aporte intelectual. Pergunta: caso Serra deixe de ser o mais bem colocado, suas chances aumentam?
Usa-se como argumento contra as pesquisas a candidatura de FHC em 1994, que largou atrás. Teria deslanchado depois de conhecido. Lorota. Era o homem do Real: havia domado a inflação. O trunfo lhe valeu duas eleições. É história. Os tucanos precisam é de projeto e de voto. Ainda não têm o primeiro, mas alguns se apressam em dar de ombros para o segundo. Os petistas devem acompanhar cheios de esperança esse jeito Toninho Cerezo de trocar passes no campo defensivo.
Compreendo que o governador Aécio Neves (MG) não queira que a disputa implique a nacionalização de uma disputa paulista. Mas não deve dar espaço para que sua fala se confunda com um veto de endereço certo. Mesmo que não queira, dado o quadro, pode estar colaborando objetivamente para a reeleição de Lula. O governador Geraldo Alckmin (SP), por sua vez, diz que prefere mirar o futuro a atacar o presidente, o passado. Anunciou que não vai criticá-lo se for para a disputa. O problema do petismo está longe de ser apenas ético. A corrosão do caráter é só uma das faces de um esforço para desconstituir a democracia. E há, claro, a economia. Para onde vamos? A crítica é um imperativo da política.
Serra, por seu turno, tem de abandonar a ambigüidade. É pré-candidato ou não? É. Por vontade sua, claro, mas também de quem se mostra disposto a votar nele. Candidaturas são construções políticas. Espero que seja ele? Espero é que seja um método!
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