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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

O seqüestro da razão e da decência

Está fazendo muito sucesso — no sentido amplíssimo da palavra — uma entrevista da editora Ivana Jinkings, sócia de Emir Sader, ao site Carta Maior. Trata-se de uma reação a um artigo de autoria de Fernando de Barros e Silva, editor de Brasil da Folha, publicado na segunda. Barros e Silva classifica a reação de […]

Por Reinaldo Azevedo 14 nov 2006, 23h51 | Atualizado em 6 jun 2024, 08h01
Está fazendo muito sucesso — no sentido amplíssimo da palavra — uma entrevista da editora Ivana Jinkings, sócia de Emir Sader, ao site Carta Maior. Trata-se de uma reação a um artigo de autoria de Fernando de Barros e Silva, editor de Brasil da Folha, publicado na segunda. Barros e Silva classifica a reação de solidariedade a Sader de hipócrita e diz por quê, conforme relembro no parágrafo seguinte. O que mais chamou a minha atenção nesta entrevista é que Ivana parece achar razoável que Cuba fuzile dissidentes porque seqüestraram um barco, embora, é claro, ela considere a pena de morte “abominável”. Eu espero tudo dessa gente. Mas não deixo de me escandalizar sempre, o que me parece uma reação saudável.

Releiam o trecho, em azul, do texto de Barros e Silva que deixou dona Ivana furiosa. Volto em seguida. E também quero comentar, trecho a trecho, a sua entrevista. Ficará um pouco longo, sei. Mas acho que será divertido. Escreve o jornalista da Folha:

“É hipócrita porque o petista mobiliza contra outro intelectual o mesmo instrumento que condena para si. Embora pouca gente saiba, Sader é testemunha de acusação de um processo em curso contra César Benjamin, vice de Heloísa Helena. Trata-se, como este que o senador Bornhausen move contra Sader, de um processo por calúnia e difamação. Quem acusa (ou tenta “impedir o direito de livre expressão” de) Benjamin é Ivana Jinkings, grande parceira de Sader e sócia da editora Boitempo. E por quê? Porque num e-mail de circulação restrita, escrito em 2004 e destinado ao próprio Sader, Benjamin narra como praticamente flagrou a dupla -que, segundo ele, fraudou uma licitação e superfaturou a publicação do livro “Governo Lula: Decifrando o Enigma”. Resultado de um convênio com uma fundação alemã, a obra foi publicada pela Boitempo. O caso está na Justiça e um dia seus detalhes sórdidos (são muitos) virão a público. Sem dúvida menor, esse episódio ilustra no entanto a deterioração e o cinismo de parte expressiva da esquerda brasileira.”
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Bem, bem… Em primeiro lugar, expresso aqui a minha grande curiosidade: queria muito saber mais sobre os “detalhes sórdidos”. Quem sabe um dia, não é? A entrevista de Ivana é concedida a Flávio Aguiar, professor de literatura da USP. Já andamos nos estranhando. Certa feita, ele me chamou de “vanguarda da nova direita”, imaginem só… Não lembro bem, mas creio que o chamei de “retaguarda da velha esquerda” ou qualquer bobagem semelhante. Voltamos a nos encontrar. À luta. As minhas intervenções estão em vermelho.

Carta Maior: A Sra. foi mencionada num artigo na Folha de S. Paulo, a propósito do processo do Senador Bornhausen contra o Professor Emir Sader. O que a sra. tem a dizer sobre isso?Ivana Jinkings: O que o colunista fez contraria todas as regras do bom jornalismo, inclusive as do manual de redação do seu (dele) jornal. Nosso manifesto não é contra a ação movida pelo Bornhausen. É contra a sentença do juiz, que menciona prisão e perda de cargo de professor da UERJ. É a segunda vez, no espaço de uma semana, que esse jornalista se dedica ao assunto. Com virulência espantosa, ódio. Primeiro, tentando desqualificar Emir Sader como o intelectual “zero à esquerda”. Usando o nome de um livro de um intelectual da esquerda, Paulo Arantes, e pretensamente defendendo outro intelectual da esquerda, Chico de Oliveira, o que os conservadores pretendem é fragmentar, sempre e cada vez mais, a esquerda. Não reconheço nesse obscuro jornalista credenciais ou idoneidade para julgar currículos e estatura intelectual de quem quer que seja. Mas é certo que temos projetos que nos distinguem. Eles usam tudo o que podem para atacar os que resistem, enquanto nós abrimos espaço para a conscientização popular, seguindo princípios historicamente construídos.Não contraria nada. Nem as regras do bom jornalismo nem as do manual. Não faço uma defesa, digamos, corporativista de Barros e Silva — ele até já me criticou num texto (tão desunida essa direita!…). Ele escreveu um artigo. A única fonte que precisa ouvir é a própria consciência. O produto desse trabalho está, como todo o resto, sujeito às leis vigentes.É curioso um cacoete de linguagem de Ivana, que trai a sua origem e a sua filiação ideológica. Certa esquerda é craque em apagar ou em reescrever a história. Noto que ela não fala o nome de Barros e Silva. É sempre “esse jornalista”, como se dissesse: “Essa escória”. O PT não quer vender estatais, mas quer privatizar palavras. Num outro texto, o articulista da Folha referiu-se à contribuição de Sader ao pensamento como um “zero à esquerda”. Ivana viu nisso uma apropriação (ou “expropriação) do título de um livro de Paulo Arantes, como se falasse em seu nome também. Como se o que já é um clichê da linguagem fizesse agora parte de um vocabulário politicamente consagrado ao partido. Há dias, uma certa Angélica não sei das quantas reclamou no site do PT que Ana Maria Braga usou negro na segunda seguinte à eleição do Lula. O partido se pretende dono do vermelho e do negro.Outra pérola do pensamento totalitário: de um lado, está o bem, estão os anjos da esquerda. São essencialmente inocentes, puros, jamais corrompidos por qualquer coisa viva. Do outro, ah, do outro, a direita, o “demônio”, pronta a dividir as esquerdas. Vejam como ela convoca para a luta Paulo Arantes, Chico de Oliveira, todos aqueles, em suma, que não são “direitistas”, “conservadores”, “reacionários”. E listará outros nomes. Vamos lá.

Em sua coluna, ele mencionou meu nome e o da Boitempo, sem que qualquer repórter tenha se dado ao trabalho de me ouvir. Um jornal que se pretende sério não faria isso. O jornalista usou um espaço nobre, abusou da posição e do cargo que ocupa (autorizado por seu patrão, certamente) para publicar uma denúncia de surpresa. Faz graves e levianas acusações, assumindo uma versão como fato, tomando uma posição no processo que ainda não foi concluído. Isso é não apenas mau jornalismo, mas configura um crime, salvo engano.
***Se e quando a Folha fizer uma reportagem sobre o processo, Ivana tem de ser ouvida. E espero que fale. Mas vá lá. O uso que essa gente faz da linguagem é um desastre. Diz ela: “Um jornal que se pretende sério não faria isso”. Ops! Um jornal que se quer sério não faria; o que só se pretende faria, sim, hehe. Reitero: o texto de Barros e Silva é um artigo. Em nada maculou a seriedade da Folha. Ao contrário.
Vejam como Ivana pretende entrar na economia interna do jornal. É por isso que eles querem tanto o Conselho Federal de Jornalismo. Se o articulista “abusou” ou não do cargo, a quem cabe julgar? Creio que a seu chefe, a seu “patrão” que seja. Se, no entanto, o “patrão” autorizou, então ele não abusou — isso sempre segundo os termos dela. Aviso logo: jornal não funciona assim. Mas eu explico o aparente paradoxo do pensamento ivaniano: a esquerda acredita que o jornalismo é uma “atividade pública” — ele tem uma dimensão pública, o que é coisa muito diferente. Como tal, ela não reconhece a autonomia que o jornalista tem para pensar, escrever. Ele deveria, claro, estar subordinado a um projeto, a um partido. Se não está, então é só esbirro do patrão. Quanto ao suposto “crime”… Bem, ela que recorra à Justiça, ué. Por que não tenta ser o Bornhausen de Barros e Silva? Acredito que seria desaconselhada a fazê-lo por qualquer advogado.

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CM: Como a sra. analisa a repercussão desse processo do senador Bornhausen contra o professor Emir na presente conjuntura, com um manifesto com mais de 15 mil assinaturas?
Só para não deixar Flávio com saudade de mim. Uau! Olha o jornalismo que eles esperam que a gente faça: duro, inquiridor, que coloque o entrevistado numa saia justa. Ô Flávio! Parece que o PT está querendo trocar o comando da Radiobras. Sugiro Flávio Aguiar. Quando ele quer deixar um entrevistado em palpos de aranha, não tem pra ninguém. Vamos a Ivana.

IJ: As milhares de assinaturas, vindas de todos os continentes, falam por si. O mencionado colunista escreve também que o manifesto que lançamos é “hipócrita”. Não que os interesse, ou faça diferença: mas dissidentes cubanos não foram executados por se expressarem, mas por seqüestrarem um barco. Pena de morte é abominável, mas não apenas em Cuba, deveria ser também abominável nos Estados Unidos. Seriam então hipócritas os quase 20 mil que assinaram o manifesto, entre eles Antonio Candido, Luiz Fernando Verissimo, Chico Buarque, Eduardo Galeano, Frei Betto, Perry Anderson, István Mészáros, Roberto Schwarz, Chico de Oliveira (para quem, aliás, não fizemos um desagravo no caso Delúbio Soares pelo simples fato de que o Chico não foi condenado), Paulo Arantes, Oscar Niemeyer, Ferreira Gullar, Augusto Boal, Tom Zé, Fernando Morais e tantos mais? Quem vai nos ensinar a pensar a partir de agora é a Folha de S.Paulo, talvez numa dobradinha com sua musa inspiradora, a revista Veja?

Como diria Lula, veio assinatura até do “Continente Árabe”!!! Gosto deste trecho: “Não que os interesse, ou faça diferença: mas dissidentes cubanos não foram executados por se expressarem, mas por seqüestrarem um barco.” Em primeiro lugar, sugiro que Flávio reveja a lição da concordância no caso dos verbos pronominais… Mas vamos ao que realmente me fascinou.
Na escala de valores de Ivana, é mais grave executar alguém por ter seqüestrado um barco do que por problema ideológico. Ela expõe o horror do seu pensamento no mérito e na prática, na essência e na sua versão aplicada. No mérito e na essência, executar alguém, sem direito de defesa, qualquer que seja o caso, parece condenável, não é mesmo? Na prática, na versão aplicada, trata-se de uma distorção típica do stalinismo: o seqüestro do barco cometido pelas pessoas assassinadas por Fidel Castro derivou de sua condição de dissidentes do regime. Acontece que, depois disso, como defender Cuba e ainda preservar os supostos valores humanistas da esquerda?
Aí vem o espírito de patota de novo. Ivana apela a algumas vacas sagradas do pensamento de esquerda, progressista ou sinônimos para promover a guerra entre o bem e o mal. E ainda resolve fazer gracejo. O nome de Chico Buarque só aparece ali porque sabe que Barros e Silva escreveu um livro sobre o compositor e cantor. Sabe também que alguns dos citados são interlocutores do jornalista. É mais uma tática do stalinismo: ou você reza segundo a cartilha ou o aparelho o ameaça com a solidão. Quanto a quem vai ensinar essa gente a pensar, a Veja ou a Folha, tou fora. Se fosse Artes Plásticas, Ivana teria de começar pela aula de “Massinha 1”. Não tou podendo.
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CM: Faz algum tempo têm surgido várias manifestações na imprensa criticando os intelectuais, ora o que é interpretado como seu “silêncio”, ora o que é criticado como uma forma de “adesismo” a-crítico à reeleição de Lula. Como a sra. analisa essa tendência?
Eita! O que faz esse hífen aí em “a-crítico”. É para escandir a sílaba? Para destacar o prefixo? Flávio, Flávio, quae te dementia cepit? Intelectuais foram criticados tanto pela adesão a Lula como a Alckmin. Ah, é que o digníssimo pretende que a condição de “intelectual” só seja reservada a quem é de esquerda. Um “intelectual” de direita, claro, seria apenas um — dá licença, Ivana? — zero à esquerda, um impostor, um equivocado, quem sabe um safado. Vamos à moça.

IJ: Talvez essa cruzada – personificada agora no Emir – não seja especialmente contra ele, ou contra o manifesto em sua solidariedade. O que incomoda a direita e seus porta-vozes é perceber que ainda existimos nós, os que resistem. Veja o tratamento desrespeitoso e truculento dado a Saramago, no mesmo jornal. Veja como foram tratados recentemente Marilena Chauí e outros que ousaram defender o governo Lula. A campanha é contra toda a esquerda e o que representamos. Por isso devemos ficar alertas.
Vocês sabem que não tenho simpatia nenhuma pela esquerda. Mas seria uma tremenda injustiça dizer que os Emirados Sáderes personificam o pensamento esquerdista. Que é isso? Posso não discordar menos de Roberto Schwarz ou Chico de Oliveira (já tão distintos entre si) do que discordo de Sader, mas est modus in rebus… Há uma medida nas coisas. Há uma diferença, mesmo quando estamos em campos opostos, entre uma crítica informada, ainda que eu a considere equivocada, e uma crítica delinqüente.
No seu delírio persecutório — delírio nada: isso faz parte do número —, Ivana diz que Saramago mereceu um “tratamento desrespeitoso e truculento” da Folha porque é de esquerda!!! Santo Deus! Vai ver se referia à crítica que o excelente colunista João Pereira Coutinho, português, fez a um livro de Saramago. Coutinho, diga-se, é um dos melhores textos publicados hoje da imprensa brasileira. Teve ainda a generosidade de livrar a cara de O Ano da Morte de Ricardo Reis, um dos livros mais chatos escritos em língua portuguesa em qualquer tempo. A pior novela de Camilo Castelo Branco me deixa muito mais excitado intelectualmente… Vou cobrar que o colunista diga por que acha o livro bom… (clique aqui para ler o texto de Coutinho). Essa gente vê perseguição ideológica até em crítica literária. E isso remete a um outro sestro da esquerda.
Para justificar a perseguição, ela sempre se disse perseguida; para conferir moralidade à sua tara totalitária, ela sempre reivindicou a condição de quem praticou uma reparação ou puniu um crime. Como se vê, num jornal em que Ivana desse as cartas, criticar Saramago seria proibido. Afinal, ele é de esquerda… Em seguida, ela usa uma primeira pessoa do plural: “representamos”. Sim, Ivana quer que Emir Sader seja o cálice que une as várias esquerdas — “Nós” — contra “Eles”, os reacionários.
À diferença de Ivana, não falo em nome de ninguém. Só no meu. Minha senhora, a única legião que reconheço — e que repudio — é o demônio. Inclusive o demônio totalitário. Mesmo quando se apresenta na forma de pura miséria intelectual.

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