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Reinaldo Azevedo

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O livro “Dirceu” e uma fábula revisitada na era do mensalão

Eu criei uma fábula. Aproveita, é verdade, parte de uma outra, muito conhecida. Um cordeiro estava bebendo água num riacho. O terreno era inclinado e, por isso, havia uma correnteza forte. Quando ele levantou a cabeça, avistou uma alcateia, que, como vocês sabem, é o coletivo de lobos. A turma também bebia. — Como é […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 05h33 - Publicado em 23 ago 2013, 14h16

Eu criei uma fábula. Aproveita, é verdade, parte de uma outra, muito conhecida.

Um cordeiro estava bebendo água num riacho. O terreno era inclinado e, por isso, havia uma correnteza forte. Quando ele levantou a cabeça, avistou uma alcateia, que, como vocês sabem, é o coletivo de lobos. A turma também bebia.
— Como é que você tem a coragem de sujar a água que nós bebemos? — perguntou um deles, que afetava certa seriedade compenetrada, sem esconder, pelo ar famélico, que estava havia alguns dias sem comer e procurava algum animal apetitoso para matar a fome.
— Senhor — respondeu o cordeiro —, não precisa ficar com raiva porque eu não estou sujando nada. Bebo aqui, uns vinte passos mais abaixo, é impossível acontecer o que o senhor está falando.
— Você agita a água — continuou o lobo ameaçador — e sei que você andou falando mal de nós no ano passado.
— Não pode ser — respondeu o cordeiro. No ano passado, eu ainda não tinha nascido.
O lobo pensou um pouco e disse:
— Se não foi você, foi seu irmão, o que dá no mesmo.
— Eu não tenho irmão — disse o cordeiro. Sou filho único.
— Alguém que você conhece, algum outro cordeiro, um pastor ou um dos cães que cuidam do rebanho, e é preciso que a gente se vingue.
— Mas o senhor acha que é justo que seja eu a pagar por isso?
— Não acho, nem eu, nem os meus companheiros aqui. Espere um minuto.
O lobo, então, improvisou ali uma espécie de assembleia ou tribunal informal junto com a sua companheirada. Minutos depois, voltou à carga.
— Vamos lhe dar uma chance, hein?
— Diga, senhor.
— Vamos lhe fazer uma pergunta. Se você acertar, pode partir em paz.
— Se eu errar…
O lobo não respondeu. Apenas deu um sorriso seco e ameaçador. E indagou:
— Qual é a exata extensão deste rio, da nascente à foz?
—18.785 metros.
A alcateia começou a uivar de satisfação.
— Errou!
— Errei?
— Sim.
— E como eu vou saber se o senhor está certo?
O lobo, então, aproximou-se do cordeiro, afetou uma seriedade superior, tirou da pelagem do rabo um verbete da Wikipedia e exibiu para o cordeiro.
— Tá vendo? São 18.587 metros. Você inverteu os três últimos algarismos.
— Acho que vocês estavam em busca de um pretexto. Isso não muda o fato de que eu bebia água morro abaixo e de que a acusação que me fizeram é falsa.
— Um lobo pesquisa com tanto afinco não por amor à precisão, mas por amor à sua profissão, que é ser lobo.
*
Essa minha fábula ainda não tem conclusão. Vai ser escrita pelo tempo. Na Folha de hoje, Carlos Andreazza, editor executivo da Editora Record, escreve um artigo que vocês têm de ler. Ele se refere ao livro “Dirceu – A Biografia” e a algumas reações que se seguiram ao texto.
*
Todo o trabalho biográfico está sujeito a erros. É preciso reconhecê-los e repará-los imediatamente, com seriedade e energia, na exata mesma medida em que se deve repelir — chamando pelo que é, lembrando o momento em que se dá — a ação coordenada dos que tentam minar a credibilidade de uma notável e já consagrada reportagem.

Como editor de Otávio Cabral em “Dirceu”, posso afirmar e reafirmar o que norteou a produção e a publicação do livro — marcos, aliás, que fundamentam os 70 anos do Grupo Editorial Record: a busca da verdade; o compromisso com a correção; a inegociável cultura da independência; o valor da liberdade; o desejo incontornável de contar histórias importantes e de difundir informações decisivas, da melhor forma, por meio do melhor texto.

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Não é à toa, portanto, que já tratamos da próxima biografia a ser escrita por Otávio Cabral: porque, para muito além de seu talento e da promissora carreira de autor, é um jornalista honesto, competente, que está, antes e acima de tudo, a serviço da própria consciência – isto, algo cada vez mais raro.

Ainda que todos os erros apontados por Mario Sergio Conti em “piauí”, e repercutidos por Morris Kachani nesta Folha, procedessem, e ainda que aquilo que de fato estava errado não tivesse merecido reparo imediato (e anterior ao texto de Conti), não seria um inventário ressentido de miudezas — levantamento espantoso, que talvez só o biografado pudesse fazer igual — a derrubar o primoroso trabalho jornalístico de Otávio Cabral em “Dirceu”.

Agora que o mensalão volta à pauta do Supremo e, pois, às manchetes dos jornais, momento em que parece haver, em diversas frentes, uma ofensiva por desqualificar tudo quanto possa ser inconveniente aos condenados, urge ressaltar que picuinha nenhuma, por habilidosa que seja, logrou apontar um só erro estrutural — uma só falha grave, de peso — capaz de comprometer sequer minimamente o conjunto do memorável trabalho de apuração jornalística e de reconstituição histórica de Otávio Cabral em “Dirceu”.

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Ninguém precisa reconhecer a relevância de se produzir e publicar uma biografia não autorizada como essa num país acovardado como o Brasil, em que os espaços para o exercício do contraditório mínguam progressivamente e em que bárbaros muito bem remunerados pelo Estado partilham a coragem de ser sempre a favor.

Pode-se bancar uma bem-sucedida carreira de repórter de gabinete com mentiras e rabo preso, mas não se alcança um sucesso como o de “Dirceu” – exatos 37 mil livros vendidos em menos de três meses – senão com verdade e clareza.

Nesta hora em que o destino de graúdos está em xeque e em que se investe pesadamente na mistificação, convém atentar para o risco de que a dita imprensa livre – mais ou menos sem perceber – sirva de cavalo aos que se valem do jornalismo para pervertê-lo em obscurantismo e atraso.

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É muito bom ser independente, mas sem jamais nos esquecermos de que há quem não o seja.

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